ALBA concede Título de Cidadão Baiano a fundador das Escolas Famílias Agrícola

A Assembleia Legislativa da Bahia concedeu, na manhã desta quinta-feira (20), o Título de Cidadão Baiano ao educador belga Thierry Marcel Georges Joel Godefroid de Burghgrave. A homenagem, proposta pela deputada Fátima Nunes (PT), se deu em reconhecimento ao legado social e pedagógico construído por Thierry na Bahia desde a década de 1970, quando ajudou a fundar as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs).

A deputada ressaltou que a homenagem “ao craque Thierry” foi extensiva a todos os fundadores das EFAs, “militantes da pedagogia da alternância”, método que possibilita aos jovens da área rural ficarem 15 dias como internos nas escolas, “estudando os conhecimentos dos livros da ciência e da cultura”, e 15 dias aplicando esses conhecimentos no campo. Com isso, há maior produtividade e domínio sobre a comercialização de produtos na agricultura familiar, afirmou Fátima Nunes.

Ela destacou a importância das escolas para a vida dos jovens estudantes e para a agricultura familiar. Mas advertiu que o futuro das EFAs depende de políticas públicas e maior engajamento das prefeituras. Ao frequentar as EFAs, os estudantes “experimentam a profissão da agricultura mais qualificada”, mas precisam “de recursos, de carros para ir e voltar, precisam de apoio do governo municipal”, alertou Fátima Nunes. O Estado, adiantou ela, já assegura o pagamento dos professores.

RESPONSABILIDADE E RESPEITO

O homenageado declarou que recebeu o Título com orgulho e alegria, mas também ciente da “grande responsabilidade e respeito” que ele exige. Ele discorreu sobre sua permanência no Brasil nos últimos 54 anos, marcada por significativos acontecimentos, adversidades e desafios, mas que, afinal, contribuíram para sua autoformação.

Dentre eles, destacou a formação religiosa, “o meu engajamento em movimentos de juventude, a incidência do Concílio Vaticano II que despertou a nossa responsabilidade como cristãos engajados, encontros com personalidades carismáticas, como Dom Helder Câmara, e com brasileiros empenhados em projetos concretos de desenvolvimento com enfoque humanista”.

Um dos projetos recebidos quando residia na Bélgica, relembrou Thierry, era oriundo do Vale do São Francisco e se chamava Fundifran – Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco, iniciativa da Diocese da Barra. Ele aceitou a proposta “um tanto quanto surreal de integrá-lo”. Na época, “a falta de infraestrutura, sem políticas públicas planejadas e efetivadas de saúde, educação, transporte, comunicação tornava a vida do povo extremamente sofrida, num sistema sociopolítico arcaico e opressor”, disse. O Brasil vivia, então, sob a ditadura militar.

Ele não se encaixou bem no “projeto inicial um tanto quanto megalomaníaco da Fundifran”. Tentou se “encaixar em ações ligadas à Pastoral Social da Paróquia da Barra”, pensou em retornar à Bélgica quando “surgiu uma luz no fim do túnel: o projeto educacional das Escolas Famílias Agrícolas – EFAs – no Espírito Santo”. Se encantou com a pedagogia da alternância, contou o mais novo cidadão baiano.

Para ele, a EFA oferecia, mesmo que parcialmente, “uma alternativa viável para a juventude do campo”. Segundo ele, “a fé e a persistência das famílias camponesas”, a dedicação de muitos educadores, a parceria com outras entidades e organizações comunitárias e sindicais do campo e com as Igrejas, “o engajamento de algumas lideranças políticas, oriundas das lutas populares, foram fatores determinantes para que as EFAs pudessem assumir um desenvolvimento do campo menos excludente, mais participativo e, principalmente, mais cidadã para a juventude do campo”.

Ao finalizar seu pronunciamento, ele agradeceu, “antes de tudo, a Deus por ter me aberto as portas e guiado incansavelmente nesse labirinto da vida, de forma segura e duradouro e, principalmente, de ter me dado uma família que foi o sustento, o arrimo inabalável, o porto seguro dessa caminhada”.

Agradeceu à esposa Tercina, aos filhos e netos, “que representam hoje o patrimônio mais rico e precioso que um pai de família possa desejar”; aos amigos e companheiros de jornada e afirmou “alto e bom som que não somos vagabundos não senhor, mas cidadãos brasileiros e planetários”, parafraseando o título de seu próprio livro.

DESAFIOS FUTUROS

As Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) são instituições de ensino comunitárias voltadas para a formação de jovens do campo e fundamentadas na pedagogia da alternância, que intercala o tempo dos alunos entre a escola e a comunidade.

O modelo propicia que o estudante volte à sua propriedade rural para aplicar os conhecimentos adquiridos nos bancos escolares.
As EFAS são gerenciadas por associações comunitárias e têm como desafio no futuro “manter a mística junto com os agricultores, junto às famílias e às organizações do campo para manter o propósito em pé”, acredita Thierry Marcel. Para ele, a escola familiar agrícola tem muito a contribuir com o desenvolvimento solidário e humano. “No Brasil, precisamos do campo, porque sem a agricultura familiar o Brasil não é o Brasil.”

Thierry Marcel Georges Joel Godefroid de Burghgrave nasceu na Bélgica e vive no sertão da Bahia há mais de 50 anos, engajado em projetos de educação do campo e desenvolvimento sustentável. Mestre em Ciências da Educação, Formação e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Nova de Lisboa (Portugal) e diplomado pela Universidade François Rabelais de Tours (França), atuou na Equipe Pedagógica Nacional (EPN) da União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil, da qual também foi um dos fundadores.

Participou da criação da Escola Comunidade Rural de Brotas de Macaúbas, em 1975, cidade onde vive atualmente, e da Escola Família Agrícola da Região de Alagoinhas, em 1982, das quais foi monitor e coordenador durante vários anos. Escreveu os livros “Vagabundos, não senhor – Cidadãos brasileiros e planetários! Uma experiência educativa pioneira do Campo” e “Vício… Sonho… até parece castigo! Vivências e notícias de garimpos de quartzo na Bahia”.

A sessão especial foi presidida pela deputada Fátima Nunes e teve a mesa dos trabalhos composta pelo conselheiro do TCE, Josias Gomes; pela diretora de Educação dos Povos e Comunidades Tradicionais da Secretaria da Educação, Poliana Reis; e pelo chefe de gabinete da Secretaria de Desenvolvimento Rural, Mário Scaldaferri. Também foram convidados o coordenador de Ações Estratégicas de Combate à Fome da Casa Civil do Governo, Tiago Pereira da Costa; o padre Xavier Nichele; o diretor-presidente da Rede das Escolas Famílias Agrícolas Integradas do Semiárido, Crispim Ribeiro da Silva; a professora da Universidade Estadual de Feira de Santana, Ludmilla Cavalcante; o diretor-presidente da Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais de Brotas de Macaúbas, Ricardo da Silva Ferreira; e o vereador de Oliveira dos Brejinhos, Sandro de Oliveira Ferreira. (Ascom).

Foto: Juliana Andrade/Ascom/Alba

Siga o Soteropolis Noticias no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp, Facebook e X.