Jamile relaciona movimento, emoções, corporeidade, luto e autorregulação e defende o corpo como caminho para ampliar a percepção sobre si e sobre o mundo.
Por Adriana Matos
Antes mesmo de aprender a falar, o ser humano já se comunica pelo corpo. O movimento acompanha a criança desde os primeiros contatos com o mundo e, ao longo da vida, pode revelar emoções, desejos, memórias e aspectos subjetivos. Foi a partir dessa perspectiva que a psicóloga Jamile Almeida discutiu movimento consciente, dança, autoconhecimento e saúde emocional em entrevista concedida nesta quinta-feira (25) ao jornalista Leon Wanderley, no podcast Top News Brasil.
Durante a conversa, Jamile destacou que “tudo é movimento” e que perceber a maneira como cada pessoa se move pode ampliar a compreensão sobre si mesma e sobre sua relação com o mundo. Para ela, não basta executar movimentos: é preciso observar como, para onde e com qual intenção o corpo se movimenta.
A psicóloga chamou atenção para o fato de que grande parte da vida cotidiana acontece no automático. Observar o próprio movimento, nesse contexto, pode ajudar a interromper esse automatismo e acessar dimensões subjetivas que nem sempre chegam à consciência. “Quando eu trago o movimento para o autoconhecimento, isso é mais rápido. Você se percebe de um jeito que não percebia”, explicou.
Para Jamile Almeida, o corpo também manifesta emoções que nem sempre encontram tradução imediata na linguagem verbal. “Quando eu saio da palavra e vou para a dança, minhas emoções aparecem”, frisou. A dança, portanto, pode ser uma forma de acessar sensações, memórias e estados emocionais, para além do espetáculo ou da técnica.
A entrevista também abordou corpo, cultura e identidade. Jamile destacou que povos indígenas e populações negras preservaram, por meio do corpo, códigos de movimento ligados à cultura, à memória e ao território. Segundo a reflexão apresentada na conversa, o processo colonial também deixou marcas na percepção dos corpos, ao impor padrões estéticos e culturais que classificaram determinados corpos e manifestações como inadequados ou inferiores.
Nesse contexto, a dança foi muitas vezes reduzida ao entretenimento e à performance, enquanto sua dimensão cultural e expressiva ficou em segundo plano. Para Jamile, o corpo também é espaço de memória, identidade e construção da subjetividade.
A relação entre corpo e espaço público apareceu a partir de sua trajetória com a dança de rua. Segundo a psicóloga, essa experiência levou à investigação sobre liberdade, expressão e presença feminina, além da reflexão sobre quais corpos são autorizados a ocupar os espaços públicos e como o corpo da mulher é visto e controlado.
Outro ponto da conversa foi a necessidade de romper com a funcionalidade excessiva e com a ideia de manter tudo permanentemente sob controle. Para Jamile, mudanças e imprevistos exigem capacidade de adaptação, reconstrução e criação. Ela relaciona esse processo a diferentes estados do corpo: movimento, ruptura, reconstrução, brincadeira e repouso. “Essa é uma onda para viver”, sintetizou.
A discussão ganhou uma dimensão pessoal quando Leon Wanderley relatou sua relação com a dança após a morte da companheira. Ele contou que deixou de dançar por cerca de três anos, porque a atividade estava associada a momentos vividos ao lado dela. Neste ano, porém, voltou a uma festa dançante e percebeu que podia novamente experimentar aquela experiência. “Eu me encontrei nisso. Amo dançar”, afirmou.
O relato levou Jamile a discutir corpo, memória e luto. Para ela, compreender racionalmente uma perda não significa que o corpo tenha elaborado a experiência no mesmo ritmo. “Era sobre perda. Era um dueto. Morreu, se foi. Eu entendi, mas meu corpo ainda não entendeu”, explicou.
A psicóloga relacionou o luto a uma retração corporal e apresentou o conceito de corporeidade, segundo o qual o corpo carrega a história e as marcas das experiências vividas. “Quando estou triste, eu me fecho. O luto me leva para a minha quinesfera pequena”, afirmou. Nesse processo, a dança pode contribuir para que a pessoa retome a percepção do próprio corpo e volte a ocupar o espaço com segurança. “Só dança quem tem chão”, disse Jamile.
A conversa também passou pela relação entre dança, sexualidade e energia vital. Jamile destacou que movimentos associados ao quadril e a outras regiões do corpo não precisam ser compreendidos necessariamente pela ótica da sexualização. A dança pode ajudar a reconhecer sensações, trabalhar tensões e favorecer a autorregulação.
Em determinado momento, a entrevista deixou o campo das ideias e chegou à experiência prática. Jamile convidou Leon Wanderley e os músicos da banda Flash Back, convidados do programa também, a se movimentarem. O gesto colocou em prática uma das questões centrais da conversa: falar sobre movimento é diferente de experimentar o movimento.
Entre música, memória e movimento, a entrevista mostrou a dança como possibilidade de expressão, percepção e reencontro com o próprio corpo. Mais do que discutir uma prática artística, a conversa levantou uma questão sobre a vida cotidiana: o que o corpo revela enquanto nos movimentamos e quanto do que fazemos acontece sem que realmente percebamos? Para Jamile, desenvolver uma relação mais consciente com o movimento pode ampliar a percepção sobre si mesmo, reconhecer emoções e abrir novas possibilidades de estar no mundo. A resposta, como sugeriu a própria conversa, está menos em uma fórmula do que na experiência de perceber, mover, sentir, mudar de rota, reconstruir e, quando necessário, parar. Mas sempre a partir do que considera essencial: movendo-se conscientemente.

Jamile Almeida é
Artista de Nascimento
Psicóloga/ Psicoterapeuta Humanista
Especialista em Neuropsicologia e Psicologia Organizacional
Mestra em Educação Expressiva e Desenvolvimento Multisensorial
Fundadora do Do Instituto Entre Artes e Terapias
e Pesquisadora de Expressividades e Movimento Consciente através da Comunidade Expressiva e o Dance Comigo
Foto: Divulgação

