Diálogo entre adversários também é democracia

Maturidade política se mede pela capacidade de convivência institucional, não pelo isolamento partidário

Por Itamar Ribeiro*

Em tempos de ano eleitoral, qualquer gesto de aproximação entre lideranças políticas de diferentes partidos costuma ser tratado com desconfiança. Surgem especulações, narrativas e leituras apressadas. No entanto, é preciso dizer com clareza: o diálogo entre agentes públicos de correntes distintas não é sinal de fraqueza ideológica — é demonstração de maturidade democrática.

A presença do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), ao lado de gestores municipais que não pertencem à sua base política direta tem sido alvo de questionamentos. Pergunta-se se há cooptação, estratégia eleitoral ou movimentação de bastidores. Mas a pergunta que precisa ser feita é outra: desde quando conversar virou crime na política?

Governar é dialogar. Administrar um estado exige transitar por diferentes correntes, ouvir prefeitos, ex-prefeitos, parlamentares e lideranças regionais, independentemente da sigla que carregam. Em Feira de Santana, por exemplo, a presença constante do governador em agendas institucionais é absolutamente justificável. Jerônimo tem vínculos acadêmicos com a cidade, onde atuou como professor da UEFS, possui laços sociais e históricos e construiu parte de sua trajetória pública. Ignorar essa relação seria, isso sim, um gesto de distanciamento político.

Os encontros que reuniram figuras como José Ronaldo (UB), Geddel Vieira Lima (MDB), o senador Jaques Wagner(PT), o governador Jerônimo (PT) e ministro Rui Costa (PT) em Brasília, não são escândalo — são expressão da democracia institucional em funcionamento. Política se faz com pontes, não com muros.

É preciso superar a visão ultrapassada de que adversários não podem dividir o mesmo espaço. A política brasileira amadureceu, e a sociedade acompanha tudo em tempo real pelas redes e pelos meios digitais. O que antes ocorria nos bastidores, hoje é público — e isso é saudável. Transparência não deve gerar suspeita automática.

Vivemos outro tempo. Não é mais a era dos palanques improvisados e dos discursos de ataque pessoal. A sociedade exige resultados, eficiência administrativa e cooperação entre os entes federativos. Prefeitos precisam do Estado. O Estado precisa dos municípios. E o cidadão precisa que ambos conversem.

A chamada democracia institucional ou procedimental baseia-se justamente nisso: regras, instituições sólidas, respeito ao voto e equilíbrio entre os Poderes. Ela não se sustenta em isolamento, mas em convivência. Democracia não é o silêncio entre divergentes; é a capacidade de conversar apesar das divergências.

Criticar o diálogo é, no fundo, defender o conflito permanente como método político — e isso nunca produziu desenvolvimento. Ao contrário, paralisa gestões e prejudica a população.

Por isso, é preciso afirmar sem receio: quando líderes de partidos diferentes se encontram para tratar de pautas públicas, quem ganha não é o grupo A ou B — quem ganha é o cidadão. A democracia se fortalece quando há respeito institucional, civilidade e compreensão de que mandatos passam, mas as instituições permanecem.

No fim das contas, a política é transitória. Os partidos mudam, as composições se alteram, os cenários se transformam. O que não pode mudar é o compromisso com o diálogo, com a responsabilidade pública e com o interesse coletivo.

E isso, gostem ou não os críticos de plantão, também é fazer política. E da forma correta.

* Itamar Ribeiro, Jornalista e Editor do Soteropolis Noticias

Foto: Divulgação

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