Emendas Pix pagam contas de água, luz, internet e até show do Safadão

Prefeitura na Bahia, comandada por filho de deputado, recebeu emendas Pix que somaram R$ 19 milhões. CGU vê irregularidades

Imagine receber cinco emendas Pix que alcançam R$ 19 milhões em um ano. Só que parte do montante evapora, e a Controladoria-Geral da União (CGU) questiona o uso da verba para pagar contas de água, luz e internet, aluguel de carros e combustível. Até um show do cantor Wesley Safadão entra na lista. É assim que o órgão retrata a prefeitura de Tucano, comandada pelo filho do deputado federal Ricardo Maia (MDB-BA), no interior da Bahia.

O pai do prefeito desponta na indicação de valores para Tucano, com R$ 11,7 milhões em uma única emenda Pix. Desse total, a CGU descobriu que a cidade pulverizou mais de R$ 1 milhão para bancar impostos, manutenção e contas básicas da administração municipal. Materiais de escritório, limpeza, aluguel de carros e combustível para o gabinete de Ricardo Maia Filho (MDB-BA) não ficaram de fora.

Veja as cinco emendas Pix:

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A auditoria da CGU vê irregularidade nos pagamentos, uma vez que arcam com despesas básicas da prefeitura em vez de custearem serviços diretos para a população, como obras – o que é proibido pelas regras das emendas Pix, com base na Constituição Federal.

“Transferências especiais […] serão aplicadas em programações finalísticas das áreas de competência do Poder Executivo do ente federado beneficiado, vedado o pagamento de despesas com pessoal (ativo e inativo) ou encargos referentes ao serviço da dívida”, frisou.

O pente-fino da CGU, concluído em dezembro, atende a uma determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino dentro da ação sobre o uso de emendas Pix, que encorparam com o fim do Orçamento Secreto. O magistrado, relator do caso, encaminhou o relatório para a Polícia Federal (PF) no mesmo mês com o objetivo de apurar se há ilegalidade no cenário geral de aplicação desse tipo de recurso.

Criadas em 2019, as transferências individuais especiais deram mais poder ao Congresso Nacional sobre o Orçamento. O apelido de emendas Pix surgiu pela baixa transparência na destinação do dinheiro e pela agilidade dos repasses de parlamentares a redutos eleitorais. Diferentemente de outros tipos, essa modalidade exige menos burocracia.

Os achados da CGU sobre as emendas Pix em Tucano

A auditoria da CGU, publicada em dezembro, analisou cinco emendas Pix enviadas a Tucano pelos deputados federais Alex Santana (Republicanos-BA), Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) e Marcio Marinho (Republicanos-BA) e pelo senador Otto Alencar (PSD-BA), além de Ricardo Maia, em 2024.

A CGU definiu uma amostra de contratos para fazer tanto uma inspeção física nas obras, quanto uma análise documental, de dados e de sistemas como o Transferegov, em que os governos precisam registrar as transferências de recursos pelo Brasil. Ainda assim, a auditoria concluiu que não foi possível rastrear o caminho percorrido pelos recursos destinados a Tucano por meio das cinco emendas Pix.

À coluna a prefeitura negou irregularidades e avaliou que as emendas Pix são “decisivas” para bancar obras, festividades e “despesas de custeio indispensáveis” (leia a nota completa no fim da reportagem). Já Alex Santana e Otto Alencar afastaram a responsabilidade sobre o uso da verba e defenderam que haja investigação. Os outros três deputados federais não se manifestaram sobre as respectivas emendas Pix.

Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Tucano tem 48,7 mil habitantes. A cidade tem como atrativos naturais cachoeiras e águas termais. O município, localizado a 273 km de Salvador, faz divisa com Ribeira do Pombal (BA), reduto eleitoral do pai do prefeito. Foi lá que Ricardo Maia fez carreira como vereador (2009-2012) e prefeito (2013-2021) antes de chegar à Câmara dos Deputados, em 2023.

Tucano registrou PIB per capita de R$ 10.698,57 em 2021, dado mais recente divulgado pelo IBGE. Esse valor equivale a apenas 25,3% do indicador medido a nível nacional (R$ 42.247,52) no ano. Já a média de remuneração girava em torno de 2,1 salários mínimos por mês em 2023.

As emendas Pix e o show de Wesley Safadão

Tucano usou R$ 500 mil da emenda Pix de Alex Santana e o mesmo valor de outra fonte de recursos para contratar um show de Wesley Safadão. A soma dos montantes custeou o cachê de Safadão e demais gastos com a equipe, a logística e operação da atração. O cantor se apresentou juntamente com outros artistas no “Arraiá das Águas Quentes”, em 13 de junho de 2024.

O show rendeu cachê de R$ 730,5 mil a Wesley Safadão, mostra o contrato publicado no Diário Oficial municipal um mês antes. Não houve licitação, como é comum nesses casos. Confira:

Extrato do contrato do show de Wesley Safadão em Tucano, que descreve como o recurso de R$ 1 milhão foi gasto
Extrato do contrato do show de Wesley Safadão em Tucano, que descreve como o recurso de R$ 1 milhão foi gasto

Ainda que o show tenha ocorrido conforme o acordo e com preço considerado adequado, a CGU apontou que Tucano omitiu informações e documentos sobre a realização dele e a fonte dos outros R$ 500 mil no Trasferegov. A avaliação é de que a manobra dificulta o controle social e a fiscalização.

O órgão também constatou que a prefeitura cadastrou o plano de trabalho sobre a contratação mais de 60 dias após o recebimento da verba, acima do prazo fixado pelo TCU. A emenda Pix do deputado e pastor também pagou consultorias, publicações em jornais e hospedagem e alimentação para servidores e assessores.

À coluna a assessoria de imprensa de Wesley Safadão afirmou que o cantor não irá se manifestar.

Obras de papel

Tucano destinou quase R$ 6 milhões em emendas Pix à pavimentação de ruas com paralelepípedo em contrato assinado com empreiteira Santana Silva Construções e Serviços Eirelli. Como a coluna mostrou, a CGU identificou casos, porém, que não passaram de “obras fantasmas”. A prefeitura de Ricardo Maia Filho as atestou como concluídas sem que jamais tivessem sido entregues ou concluídas.

Prefeitura de Tucano emenda
Nota fiscal mostra que Prefeitura de Tucano pagou por obra, com verba de emendas Pix, que não foi entregue

No relatório, o órgão elenca uma série de irregularidades na aplicação dessas emendas Pix. Tucano não especificou, por exemplo, quais ruas seriam pavimentadas, tampouco anexou os documentos técnicos necessários para planejar e executar a obra.

A CGU considerou, ainda, que a prefeitura descreveu esse trabalho de pavimentação de modo “genérico”, o que prejudicou o acompanhamento e a fiscalização dos gastos.

“Verifica-se, portanto, que não foram definidas metas mensuráveis e passíveis de acompanhamento e avaliação da execução dos planos de trabalho. […] É importante relacionar essa ausência de especificação e documentação com as irregularidades, especialmente em relação à inexecução total ou parcial da pavimentação em diversas ruas de povoados do Município. A correta identificação dos objetos e metas contribuiria para o controle social e das instituições responsáveis, o que poderia inibir ou mitigar situações de malversação dos recursos públicos”, escreveu.

Ao realizar vistorias no local, em agosto de 2025, os auditores da CGU encontraram o seguinte cenário:

  • a empreiteira não realizou os serviços medidos e pagos no primeiro aditivo do contrato, no valor de R$ 1,252 milhão;
  • a prefeitura pagou mais de R$ 2 milhões no contrato principal sem que a construtora tenha prestado o serviço;
  • nenhum dos 13 bairros visitados tinha itens como piso tátil e placas de sinalização, bancados pelo município;
  • moradores construíram as próprias calçadas no povoado de Rua Nova, sem padrão definido, apesar de o município ter pagado à empreiteira para executá-las.
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Relatório da CGU detalha várias irregularidades em obra paga, mas não entregue em Tucano (BA). Uma das fontes de recurso do empreendimento foi a "Emenda PIX" no valor de R$1,5 milhão do deputado Félix Mendonça (PDT-BA)

Relatório da CGU detalha várias irregularidades em obra paga, mas não entregue em Tucano (BA). Uma das fontes de recurso do empreendimento foi a "Emenda PIX" no valor de R$1,5 milhão do deputado Félix Mendonça (PDT-BA)
Relatório da CGU detalha várias irregularidades em obra paga, mas não entregue em Tucano (BA). Uma das fontes de recurso do empreendimento foi a "Emenda PIX" no valor de R$1,5 milhão do deputado Félix Mendonça (PDT-BA)
Relatório da CGU detalha várias irregularidades em obra paga, mas não entregue em Tucano (BA). Uma das fontes de recurso do empreendimento foi a "Emenda PIX" no valor de R$1,5 milhão do deputado Félix Mendonça (PDT-BA)
Relatório da CGU detalha várias irregularidades em obra paga, mas não entregue em Tucano (BA). Uma das fontes de recurso do empreendimento foi a "Emenda PIX" no valor de R$1,5 milhão do deputado Félix Mendonça (PDT-BA)

A CGU também revelou prejuízo de mais de R$ 142 mil, oriundos das emendas Pix, apenas na instalação de meios-fios. Segundo a auditoria, a Prefeitura de Tucano pagou por peças de dimensões maiores, mas a empresa instalou bordas da calçada com 5 centímetros a menos – lucrando indevidamente sobre a diferença de material.

Procurada, a empresa não retornou aos contatos da reportagem.

Prefeito de Tucano fez publicidade da pavimentação no bairro de Mandacaru durante as eleições de 2024. A CGU, no entanto, encontrou irregularidades na obra
Prefeito de Tucano fez publicidade da pavimentação no bairro de Mandacaru durante as eleições de 2024. A CGU, no entanto, encontrou irregularidades na obra bancada com emendas Pix

O que Tucano respondeu à CGU sobre as emendas Pix

Questionado pela CGU, o município argumentou que as frentes de serviço bancadas pelas emendas Pix ainda estavam em andamento durante a vistoria dos auditores. “Razão pela qual a constatação de eventuais ausências de calçadas, sinalização ou acabamento final não pode ser confundida com inexecução contratual, mas sim (sic) com etapas subsequentes do cronograma físico-financeiro”, assinalou.

A Prefeitura de Tucano reconheceu que pagou por serviços não executados e se comprometeu a cobrar da construtora a entrega das obras custeadas com as emendas Pix. O município alegou, ainda, que pode ter “havido falhas” no momento do atesto formal, ou seja, da assinatura confirmando que a realização do serviço. Contudo, negou má-fé.

“A mobilização da equipe técnica visa demonstrar que, embora possa ter havido falhas no timing do atesto formal ou no sistema de pagamentos da fase inicial, o objeto da emenda foi ou está em processo de completa execução física, e a alegada “ineficiência” será refutada pelos fatos concretos. Os registros fotográficos e georreferenciados servirão como prova material robusta para demonstrar a completa execução física do objeto.”

Nos bolsos da prefeitura

Ao seguir o caminho do dinheiro, a CGU descobriu que a prefeitura usou cerca de 78% do R$ 1,8 milhão enviado por Otto Alencar para ressarcir os próprios cofres por despesas que já havia quitado. Com o “remanejamento” superior a R$ 1,3 milhão em uma conta distinta à da emenda Pix, o órgão ressaltou que o rastro do dinheiro se perdeu.

“O ressarcimento de despesas já liquidadas e quitadas com recursos próprios não encontra respaldo no arcabouço jurídico que regulamenta as transferências especiais”, anotou a CGU.

Dos R$ 2 milhões de Marcio Marinho, a CGU assinalou que Tucano gastou R$ 209,8 mil (10,5%) com despesas cotidianas, como aluguel de carros-pipa e de caminhão de coleta de lixo, shows e até passagens para coleta de armas doadas “em desacordo com as regras estabelecidas”. O planejamento dos recursos indicava o investimento em obras e a compra de bens duráveis.

No relatório, o órgão resume que a cidade se atrasou para cadastrar todos os planos de trabalho, que detalham como o dinheiro oriundo das emendas Pix será gasto, no Transferegov. Também não houve registro de emendas parlamentares no portal da transparência municipal até agosto passado. Ambos os pontos prejudicam a fiscalização, avaliou a CGU.

O que dizem os envolvidos

O senador Otto Alencar afirmou que não foi até Tucano conferir o andamento da obra e que não é responsável por executar os recursos. Por fim, afirmou que indicou a emenda “na boa-fé” e defendeu as investigações e que eventuais responsáveis pelas irregularidades sejam responsabilizados.

“Eu não vou lá no município de Tucano, não fui lá ver a obra. A gente coloca [emenda] na boa-fé. Se foi aplicado errado, é investigar ao rigor da lei, punir, se for o caso de ser o prefeito, punir o prefeito por isso, com todas as letras, sem nenhum problema”, declarou o senador.

Ainda em conversa com a reportagem, Otto Alencar justificou que indicou a emenda ao município indiscriminadamente. “Eu coloquei a emenda. Eu conheço ele [Ricardo Maia Filho], uma pessoa lá de Tucano. Ele me pediu emenda, esteve no meu gabinete. Eu coloquei a emenda, como coloco para vários municípios da Bahia. Mas não sou eu que aplico a emenda.”

Na mesma linha, o deputado federal Alex Santana, que não é responsável por fazer o “controle” e a fiscalização das emendas que indica. “Isso é uma função da CGU. O que o executor, o que o prefeito vai fazer com a emenda que o deputado mandou, não é um problema do deputado”, asseverou.

Santana declarou ainda que, se houve desvio de recursos ou finalidade em relação às emendas Pix, a gestão do município seja responsabilizada. “Eu não me beneficiei em nenhum momento de nada que foi feito pela gestão. Acho que, se a gestão fez algo de maneira criminosa no sentido de desviar o recurso, ela vai pagar. Ela tem que ressarcir os cofres públicos ou tem que se justificar à CGU ou aos órgãos competentes, porque desviou um dinheiro que não era para essa finalidade”, pontuou.

Procurados pela coluna, os deputados federais Ricardo Maia, Félix Mendonça e Márcio Marinho não responderam sobre a indicação das emendas Pix.

Leia a íntegra do posicionamento do município de Tucano (BA) sobre as emendas Pix:

“O Município de Tucano/BA vive um novo momento de desenvolvimento, marcado por avanços expressivos na infraestrutura, no fortalecimento dos serviços públicos e na valorização da cultura, resultado direto da atuação firme da gestão municipal na captação e correta aplicação de emendas parlamentares, incluindo as Emendas Especiais (Emendas PIX), destinadas por parlamentares comprometidos com o progresso da Bahia e com as demandas reais do povo baiano.

Com planejamento, responsabilidade e foco nas prioridades da população, a Prefeitura de Tucano tem transformado recursos em obras, ações e serviços que chegam tanto à sede quanto à zona rural, promovendo melhorias concretas no dia a dia dos cidadãos. As emendas parlamentares têm sido decisivas para a execução de obras estruturantes, para o fortalecimento das festividades tradicionais, impulsionando o turismo e a cultura, além de assegurarem despesas de custeio indispensáveis, que mantêm a máquina pública em pleno funcionamento e garantem a continuidade dos serviços essenciais.

Os investimentos realizados não apenas qualificam os espaços urbanos e rurais, como também movimentam a economia local e regional, fortalecendo o comércio, estimulando fornecedores e prestadores de serviços, gerando emprego, renda e novas oportunidades para a população tucanense.

A Administração Municipal destaca que todas as obras executadas com recursos das Emendas Especiais foram integralmente direcionadas às suas finalidades, refletindo o compromisso da gestão com a legalidade, a transparência e o uso responsável do dinheiro público. Algumas intervenções seguem em fase final de execução, a exemplo das obras de pavimentação em diversos povoados da zona rural, que simbolizam inclusão, mobilidade, dignidade e mais qualidade de vida para quem vive no campo.

A Prefeitura de Tucano reafirma seu compromisso com uma gestão presente, eficiente e voltada para resultados, agradece a parceria institucional dos parlamentares que acreditam no município e reforça que seguirá trabalhando, com seriedade e responsabilidade, para promover desenvolvimento, justiça social e avanços duradouros para todos os tucanenses”.

Crédito: Melissa Duarte/Manuel Marçal – Metrópoles

Crédito – Coluna de Tácio Lorran Metrópoles

Foto: Lara Abreu/Arte Metrópoles

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