Enchentes e avalanches devastam cidades no Nepal e deixam famílias à espera de desaparecidos

Força das águas cobriu casas e ruas de lama, destruiu estruturas e dificultou o trabalho das equipes de resgate; sobreviventes foram retirados de túneis e áreas isoladas

A força das águas transformou cidades do Nepal em cenários de destruição. O transbordamento do rio Trichuli arrastou casas, veículos e estruturas inteiras, enquanto ruas ficaram cobertas por lama e sedimentos. Em algumas áreas, a lama chegou a atingir a altura equivalente ao terceiro andar de um prédio.

Na cidade de Trishuli, uma das regiões mais atingidas, moradores passaram a procurar familiares desaparecidos entre os escombros. O centro, onde funcionava um movimentado bazar, foi tomado pela lama. Casas foram destruídas, um banco foi atingido e veículos estacionados nas ruas acabaram arrastados pela enxurrada.

Famílias separadas pela destruição

A tragédia também deixou famílias isoladas umas das outras. Um morador contou que havia atravessado uma ponte e, cerca de 15 minutos depois, a estrutura foi levada pela força da água. A família dele permaneceu do outro lado e, sem acesso à ponte, ele passou a procurar informações sobre os parentes.

Sem ter para onde ir, moradores permaneceram no centro da cidade em busca de notícias e tentando encontrar algum sinal de familiares desaparecidos.

A destruição também trouxe outro problema: o risco de saques. Imagens feitas por drone mostraram pessoas entrando em imóveis atingidos para retirar objetos. Comerciantes que perderam tudo passaram a tentar proteger o que restou de seus estabelecimentos.

Em meio aos destroços, um homem chegou a tentar acessar o cofre de um banco. Ele acreditava que o dinheiro permanecia preservado e afirmou possuir a chave para entrar no local.

Avalanche desencadeou uma sequência de destruição

O Nepal está localizado em uma região montanhosa aos pés do Himalaia, onde existem grandes volumes de neve, gelo, geleiras e lagos.

Uma das explicações apontadas por especialistas para a tragédia está relacionada ao rápido derretimento das geleiras. Estudos citados no relato indicam que a velocidade desse processo aumentou significativamente nas últimas décadas.

A sequência de acontecimentos começou com o desprendimento de uma grande quantidade de gelo de uma área montanhosa. O impacto foi tão forte que moradores inicialmente acreditaram que estavam diante de um terremoto.

Na sequência, uma avalanche carregou pedras, sedimentos e grandes volumes de rochas, bloqueando o curso de alguns rios. Com a pressão da água, os bloqueios acabaram rompidos. A correnteza desceu violentamente pelas áreas habitadas, provocando inundações e destruição em grande escala.

Imagens de satélite registraram a transformação das áreas atingidas, revelando a diferença entre as regiões antes e depois da passagem da avalanche e da lama.

Resgates acontecem por helicópteros

A tragédia ocorreu durante um período de peregrinação religiosa hindu, quando milhares de pessoas circulavam pela região. A dimensão da catástrofe fez com que corpos de desaparecidos fossem encontrados inclusive em áreas da Índia.

As operações de resgate foram prejudicadas pela falta de energia elétrica, telefone e internet em diversas localidades. Sem comunicação, familiares tiveram dificuldade para descobrir o paradeiro de pessoas que estavam nas regiões atingidas.

Na base do Exército do Nepal, parentes se concentraram em busca de informações. Listas com nomes de pessoas resgatadas eram consultadas na tentativa de encontrar familiares.

Helicópteros passaram a ser fundamentais para alcançar áreas isoladas e transportar sobreviventes. Entre as pessoas retiradas estava uma mãe com um bebê de apenas um mês de vida, resgatados de uma região remota próxima à fronteira com o Tibete.

Sobreviventes são retirados de túneis

Um dos sobreviventes trabalhava em uma hidrelétrica e dirigia um caminhão que transportava 15 funcionários quando a tragédia aconteceu. Ele ficou preso dentro de um túnel, conseguiu sair do veículo e nadar até a superfície coberta pela lama.

Segundo o relato, ele acreditava que os demais trabalhadores que estavam no caminhão não haviam sobrevivido.

A presença de diversas hidrelétricas na região aumentou a dimensão dos riscos. Túneis em construção também foram atingidos, e algumas pessoas precisaram ser retiradas desses locais pelas equipes de emergência.

Entre os resgatados estava ainda um homem de 84 anos. A casa onde vivia com a família foi completamente destruída pela enchente. Eles passaram a noite em claro até a chegada do socorro. O idoso, que já enfrentava problemas de saúde, recebeu atendimento médico após ser retirado da área atingida.

Os casos mais graves foram encaminhados para hospitais em Katmandu. Pessoas encontradas inconscientes ou com traumas importantes precisaram de atendimento especializado.

Famílias continuam à espera

Mesmo com o avanço dos resgates, muitas famílias ainda não tinham informações sobre parentes desaparecidos.

Uma mulher contou que o irmão trabalhava em uma hidrelétrica e mantinha a esperança de que ele estivesse vivo, possivelmente preso em algum túnel atingido pela lama.

Outra família procurava um homem que desapareceu enquanto trabalhava como motorista em uma das áreas mais atingidas.

“Ele tem uma mulher e duas filhas, por favor nos ajudem!”, foi o apelo feito por uma familiar.

A esperança, entretanto, também se alimenta de histórias de sobrevivência. Uma menina de apenas seis anos foi retirada dos escombros dois dias depois da avalanche. Uma mulher de 97 anos também conseguiu sobreviver após permanecer coberta pela lama.

A idosa ficou entre oito e nove horas enterrada até ser localizada. O bisneto acompanhou o momento do resgate.

“Eu fiquei muito emocionado quando tiraram ela. Não sabia o que fazer. Nem sei pôr em palavras”, contou.

Nepal enfrenta o impacto da crise climática

O Nepal está entre os países que possuem uma das menores contribuições para as emissões globais de gases de efeito estufa, mas enfrenta impactos severos relacionados às mudanças climáticas.

É o que organismos internacionais classificam como injustiça climática: países que pouco contribuem para o aquecimento global estão entre os que sofrem alguns dos efeitos mais graves das mudanças no clima.

Do alto, a dimensão do Himalaia ajuda a compreender a escala do fenômeno. As geleiras, os rios e as comunidades instaladas nas áreas montanhosas estão diretamente conectados. Quando o equilíbrio natural é rompido, a força da água e dos sedimentos pode transformar rapidamente uma paisagem em um cenário de destruição.

No Nepal, a prioridade agora é localizar os desaparecidos, retirar sobreviventes das áreas isoladas e reconstruir comunidades que perderam casas, negócios e parte de sua infraestrutura.

Da Redação – Soteropolis Noticias

Foto: Reprodução/TV Globo

Siga o Soteropolis Noticias no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp, Facebook e X.