Entre a sátira do carnaval e a essência bíblica de conservar valores, a reflexão que a sociedade precisa fazer
Por Itamar Ribeiro*
A recente representação carnavalesca intitulada “Família em Conserva”, apresentada pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, no Rio de Janeiro, reacendeu um debate necessário — e profundo — sobre o papel da família conservadora na sociedade contemporânea. A imagem de uma família dentro de uma “lata com lacre”, numa alusão a sardinhas em conserva, foi interpretada por muitos como sátira, crítica ou mensagem direta aos chamados conservadores, especialmente evangélicos e cristãos de diferentes denominações.
Mas a pergunta que ecoa, para além da avenida, é outra: o que seria da sociedade se não houvesse aqueles que conservam?
Ai de uma civilização que não tivesse seus conservadores — na literatura, nas religiões, na família, na ética, na cultura. Como estaria o mundo atual sem aqueles que preservam valores, guardam princípios e mantêm tradições que sustentam gerações? Eis a reflexão que se impõe.
Conservar: um princípio bíblico e existencial
No contexto bíblico, conservar significa manter, preservar, guardar com firmeza a verdade, os mandamentos e a fé — vivenciando-os no cotidiano. Não se trata de guardar como quem tranca um objeto numa caixa, mas de proteger aquilo que é essencial, zelando para que não se deteriore com o tempo ou com as pressões externas.
Guardar a Palavra, à luz dos ensinamentos de Jesus, é permitir que ela conduza a vida. É proteger o coração e os ensinamentos recebidos, mantendo-os vivos e inalterados. O livro do Apocalipse orienta: “Conserva o que tens” (Ap 2:25; 3:11), um chamado à fidelidade, à perseverança e à firmeza doutrinária.
Conservar, portanto, não é estagnar; é permanecer fiel.
A família como bem precioso
Se queremos conservar a família, é necessário protegê-la, nutri-la e guiá-la com base nos ensinamentos divinos. A união, o amor e o temor a Deus são fundamentos indispensáveis. Trata-se de um compromisso ativo: guardar os laços físicos e espirituais, prover as necessidades do lar, ensinar a fé e compreender a família como um bem precioso concedido por Deus.
A harmonia familiar exige maturidade e renúncia. A Bíblia ensina a “suportar-vos uns aos outros” e a perdoar mutuamente, mantendo a paz no lar (Colossenses 3:13-15). Sem esses princípios, a estrutura familiar se fragiliza; com eles, fortalece-se.
Sátira ou despertamento?
A representação carnavalesca — seja vista como crítica, ironia ou apologia — revela algo significativo: a família conservadora incomoda. E, se incomoda, é porque ainda exerce influência.
A palavra “apologia”, do grego apologia (as), significa defesa, justificativa. No cristianismo, fazer apologia é defender a fé. Curiosamente, o termo também aparece na culinária — conservar alimentos para que não se estraguem. Em ambos os casos, trata-se de preservação.
Talvez, sem perceber, o desfile tenha provocado um despertamento. Muitos que estavam acomodados foram instigados a refletir sobre seus valores, seus hábitos familiares, sua prática cristã. Em vez de indignação apenas, pode haver introspecção.
Educação por princípios: formando gerações
A preservação da família passa, inevitavelmente, pela educação. A chamada Educação por Princípios apresenta sete fundamentos essenciais: Soberania, Caráter, Individualidade, Aliança, Semeadura e Colheita, Governo (autogoverno) e Mordomia (administração da vida e dos recursos).
Esses princípios propõem uma cosmovisão cristã, na qual todas as áreas da vida — intelectual, social, emocional e espiritual — estão submetidas aos ensinamentos bíblicos.
A educação cristã fundamenta-se no desenvolvimento integral do indivíduo: físico, mental e espiritual. Tem como eixo central o amor a Deus e ao próximo, promovendo formação de caráter, responsabilidade moral e consciência espiritual.
Entre a crítica e a convicção
Se a intenção foi ironizar, a reflexão permanece válida. Conservar não é retroceder; é proteger aquilo que sustenta. A sociedade moderna, fragmentada por crises morais, emocionais e espirituais, precisa de alicerces sólidos.
A família conservadora — longe de ser “enlatada” — é aquela que preserva valores que atravessam gerações. Não se trata de isolamento, mas de identidade. Não é rigidez cega, mas fidelidade consciente.
Talvez o maior questionamento não seja por que representar a família em uma lata, mas por que a preservação de princípios ainda causa tanto desconforto.
No fim, permanece a convicção: conservar é um ato de amor, de responsabilidade e de fé.
Itamar Ribeiro é teólogo, professor acadêmico, jornalista, escritor, pedagogo e contador.*

