Há amigos que o tempo não consegue levar

Por Itamar Ribeiro*

Há meses que passam despercebidos.

Há outros que chegam trazendo lembranças.

Setembro, para mim, não é apenas mais uma página no calendário.

Quando setembro chega, alguma coisa dentro de mim se transforma. É como se o tempo, por alguns instantes, abrisse uma antiga gaveta da memória e dela retirasse histórias que eu julgava adormecidas.

E entre tantas lembranças, uma delas sempre volta.

Tem nome.

Tem rosto.

Tem voz.

Tem história.

Eliseu Cabral Leal.

Foi no dia 1 de setembro de 1980 que a vida de um amigo foi brutalmente interrompida.

Passaram-se décadas.

Mas há ausências que não envelhecem.

Há saudades que não obedecem ao calendário.

O AMIGO DOS PROJETOS

Lembro-me de nossas conversas.

Eram muitas.

Conversávamos sobre política, sobre a vida, sobre a região cacaueira, sobre Gandu, sobre o futuro.

Mas, acima de tudo, conversávamos sobre sonhos.

Eliseu era um homem de sonhos grandes.

Não daqueles sonhos que ficam apenas na conversa de uma mesa ou no pensamento de quem os imagina.

Ele gostava de transformar ideias em realidade.

Poucos dias antes de sua morte, falávamos sobre projetos para Gandu.

Ele havia viajado a São Paulo.

Na agenda, levava uma preocupação que parecia simples, mas revelava muito de sua maneira de pensar: conhecer um projeto de Central de Abastecimento que pudesse ser implantado em sua terra.

Ele foi.

Conheceu.

Trouxe a ideia.

E conseguiu.

O Centro de Abastecimento de Gandu tornou-se uma realidade.

Hoje, quando penso nisso, percebo que talvez aquela conversa tivesse sido muito mais importante do que imaginávamos.

Nós estávamos falando do amanhã.

Sem saber que o amanhã de Eliseu estava tão perto do fim.

O HOMEM QUE AMAVA GANDU

Eliseu não era daqueles homens que ocupavam um cargo e simplesmente passavam por ele.

Ele tinha raízes.

Tinha pertencimento.

Tinha paixão pela terra.

Gandu estava nele.

E ele estava em Gandu.

Foi vereador, prefeito e deputado estadual pela ARENA, entre 1971 e 1975.

Como homem público, construiu uma trajetória que o levou para além dos limites de seu município.

Sua voz se fez ouvir na política baiana.

Seu nome circulava entre grandes lideranças.

O então governador Antônio Carlos Magalhães, o conhecido ACM, acompanhava sua trajetória política.

Mas, para quem o conhecia de perto, havia algo maior do que os títulos.

Havia o homem.

O amigo.

O companheiro de viagem.

O pecuarista.

O comerciante.

O político combativo.

O cidadão que não fugia da luta.

Eliseu tinha suas posições e as defendia com coragem.

Era bravo, sim.

Mas sua bravura vinha acompanhada de uma convicção: a de que era preciso lutar por sua gente.

A ÚLTIMA VEZ

Existe uma crueldade silenciosa nas despedidas que não sabemos que são despedidas.

A última conversa nunca vem acompanhada de um aviso.

Ninguém nos diz:

“Esta será a última vez que vocês conversarão.”

Por isso, continuamos falando sobre projetos.

Sobre viagens.

Sobre o futuro.

Sobre coisas que parecem importantes naquele momento.

E foi assim comigo e Eliseu.

Dias antes de sua morte, conversamos sobre Gandu e sobre seus projetos.

Ele havia ido a São Paulo.

Estava em Salvador.

Participava de um Congresso de Vereadores.

No domingo, 31 de agosto de 1980, encerrava-se no Centro de Convenções da Bahia aquele encontro.

Tudo parecia seguir seu curso.

Naquele domingo, ninguém poderia imaginar que, um dia depois, a história seria outra.

No dia1 de setembro, Eliseu foi assassinado.

A notícia chegou como chegam as grandes tragédias: interrompendo tudo.

Interrompendo os planos.

Interrompendo os sonhos.

Interrompendo uma vida.

E deixando uma pergunta que muitas vezes não encontra resposta:

Por quê?

A FAMÍLIA E A NOVA VIDA

Também guardo na memória o período em que Eliseu passou a viver em Salvador com sua família.

Era um novo capítulo.

Uma nova cidade.

Novos caminhos.

Para Dona Iracene, minha querida comadre Irá, como eu carinhosamente a chamava, Soraia e Nelsinho, começava também um processo de adaptação.

A vida familiar seguia.

E Eliseu continuava com os olhos voltados para sua terra.

Porque há homens que podem mudar de endereço, mas jamais mudam de raízes.

O LEGADO

O que ficou?

Ficaram as obras.

Ficaram os registros.

Ficaram os cargos exercidos.

Ficou a história política.

Ficou a contribuição para Gandu.

Ficou sua defesa da lavoura cacaueira, dos produtores e do desenvolvimento do Baixo Sul e do Sul da Bahia.

Mas ficou também algo que nenhum documento oficial consegue registrar completamente:

a memória de quem conviveu com ele.

E talvez esse seja o patrimônio mais bonito que alguém pode deixar.

Porque uma obra pode ser modificada.

Um prédio pode ser demolido.

Um cargo termina.

Uma fotografia envelhece.

Mas a lembrança de um amigo verdadeiro pode atravessar gerações.

QUANDO O TEMPO PARA

Hoje, quando escrevo esta crônica, percebo que estou fazendo mais do que recordar Eliseu.

Estou conversando novamente com ele.

Sim.

Porque escrever sobre alguém que amamos é, de certa maneira, voltar a encontrá-lo.

Enquanto escrevo, revejo nossas conversas.

Revejo as viagens.

Revejo os projetos.

Revejo aquele homem preocupado com Gandu, com a região, com o futuro.

E me pergunto quantos outros sonhos ainda teria realizado se a vida não tivesse sido interrompida tão cedo.

Não tenho essa resposta.

Ninguém tem.

Mas sei de uma coisa:

Eliseu não passou pela história de Gandu em vão.

Ele deixou marcas.

E homens que deixam marcas não desaparecem completamente.

UMA SAUDADE QUE PERMANECE

Alguns dos que conheceram Eliseu também já partiram.

Aqueles que estavam ao seu lado naquela época hoje fazem parte das lembranças.

O mundo mudou.

As pessoas mudaram.

A política mudou.

Gandu mudou.

Eu também mudei.

Mas existe uma coisa que permaneceu exatamente no mesmo lugar:

a amizade.

Talvez seja por isso que meus olhos lacrimejem quando escrevo sobre Eliseu.

Não é apenas saudade.

É gratidão.

Gratidão a Deus por ter permitido que nossos caminhos se encontrassem.

Gratidão pelas conversas.

Pelas viagens.

Pelos projetos.

Pelos momentos compartilhados.

E pela oportunidade de ter conhecido um homem que acreditava em sua terra e lutava pelo que entendia ser melhor para seu povo.

E AGORA, AMIGO…

Eliseu, meu amigo,

não sei onde você estaria hoje.

Não sei quais projetos teria realizado.

Não sei quais batalhas teria enfrentado.

Não sei o que pensaria da Gandu de hoje.

Mas sei o que permanece.

Você permanece na memória.

Permanece nas histórias daqueles que o conheceram.

Permanece nos registros da vida pública de Gandu.

Permanece na história política da Bahia.

Permanece no coração de sua família.

E permanece, sobretudo, no coração daqueles que tiveram o privilégio de chamá-lo de amigo.

Por isso, quando setembro chega, eu lembro de você.

E quando lembro, meus olhos se enchem de lágrimas.

Não porque quero permanecer preso ao passado.

Mas porque algumas pessoas merecem ser lembradas.

Você é uma delas.

Tiraram sua vida naquele 1 de setembro de 1980.

Mas não tiraram sua história.

Não tiraram seus sonhos.

Não tiraram seu legado.

E não tiraram de mim a lembrança da nossa amizade.

Escrevo estas linhas porque escrever é a maneira que encontrei de manter acesa uma pequena luz contra o esquecimento.

Enquanto houver memória, haverá encontro.

Enquanto houver saudade, haverá presença.

Enquanto houver alguém para contar sua história, você continuará vivendo.

Hoje, escrevo com o coração apertado e os olhos marejados. E, no silêncio que existe entre uma palavra e outra, faço uma pequena oração:

Obrigado, meu Deus, pela amizade que me permitiste viver com Eliseu.

E a você, meu amigo, deixo apenas uma certeza:

o tempo levou você do nosso convívio, mas jamais conseguiu levar você do meu coração.

Descanse em paz, Eliseu.

Seu amigo de sempre,
Itamar Ribeiro*, escritor e jornalista

Foto: Portal Ganduzão

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