Moacir Lopes de Sousa: um legado de fé que o tempo não apaga

Pastor zeloso, pai exemplar, conselheiro leal — um homem cuja vida continua pregando, mesmo em silêncio

Por Itamar Ribeiro

Escrever sobre o legado de alguém que nos deixou há 16 anos não é tarefa simples; é exercício de memória, de gratidão e, sobretudo, de amor. As palavras, por vezes, embargam na garganta, as lágrimas insistem em cair, e o coração, ainda que fortalecido pela fé, sente a ausência. Hoje, 19 de fevereiro, ele completaria 106 anos de vida, se estivesse entre nós — mas a eternidade já o abraçou. Recordar sua história é permitir que o passado caminhe ao nosso lado, que sua voz ecoe novamente, que seu exemplo nos conduza, mais uma vez, pelo caminho da fé.

Moacir Lopes de Sousa nasceu em 19 de fevereiro de 1920, na cidade de Frei Paulo, Sergipe, filho de Tomé Lopes de Souza e Cosma Maria de Sousa. Cresceu sob os valores do interior nordestino — trabalho, honra e palavra firme. Em 1º de agosto de 1944, teve sua carteira profissional assinada como sapateiro, na Sapataria São Salvador, em Itabaiana-SE. Mais tarde, naturalizou-se em Paripiranga-BA, após residir em outras cidades, enquanto seu pai fixava morada em Euclides da Cunha-BA, onde novas páginas de fé seriam escritas.

Ainda jovem, casou-se com Almira Ribeiro de Souza, natural de Antas-BA, sua companheira de vida, de ministério e de oração. Mulher dedicada, assistente social por vocação, era ela quem selava os encontros com o tradicional “cafezinho”, servido com carinho, enquanto conselhos, risos e lágrimas eram partilhados à mesa. A casa nunca foi apenas residência — era abrigo, era refúgio, era porto seguro para familiares, amigos e pastores.

Foi em Euclides da Cunha que seu pai conheceu o pastor José Marques dos Santos, desbravador do evangelho, homem de visão espiritual aguçada. A conversão ao evangelho de Cristo Jesus transformou a história da família, que passou a congregar na Assembleia de Deus. Moacir, ainda jovem, mergulhou nas Escrituras Sagradas; estudava, orava, buscava compreender, desejava servir. Em pouco tempo, foi consagrado ao presbitério.

Indicado pelo pastor Marques, assumiu a missão de desenvolver um trabalho evangelístico em Cícero Dantas-BA — cidade de tradição católica, resistente à nova mensagem. Mas ele não recuou. Com coragem, mansidão e convicção, anunciava o evangelho de Cristo, conquistando vidas para o Reino. “O chamado de Deus não se negocia”, dizia, com serenidade firme.

Seu ministério avançou. Foi consagrado a evangelista e, posteriormente, a pastor. Pastoreou igrejas da Assembleia de Deus em diversas cidades da Bahia — Cipó, Itaberaba, Itapetinga, Gandu, Uruçuca, Juazeiro, Nazaré, Cruz das Almas, Santo Estêvão, Salvador, Paripe, Santo Amaro, Santo Antônio de Jesus, Ribeira do Pombal, entre tantas outras. Tornou-se membro atuante da Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia-CEADEB, sendo lembrado, nas reuniões pastorais, por sua lealdade, por sua fidelidade aos superiores, por sua postura ética e, também, pelos momentos de descontração que arrancavam sorrisos dos colegas.

Quantas vidas foram por ele batizadas… quantos casamentos celebrados… quantas crianças apresentadas ao altar… quantos obreiros aconselhados em silêncio… Seu legado pastoral é grande — e a eternidade, apenas a eternidade, poderá recompensá-lo plenamente.

Duro na doutrina, terno no amor

Como pai, era amigo e conselheiro, mas também disciplinador. Amava com firmeza. Corrigia com propósito. “A disciplina é expressão de cuidado”, ensinava. Buscava formar caráter, moldar princípios, fortalecer a fé de cada filho.

Costumava afirmar, com um sorriso confiante: “Minha aposentadoria são meus filhos”. E, mesmo aposentado pela Previdência Social, repetia que seriam eles seu amparo na velhice. A palavra se cumpriu.

Sua herança aqui na terra foram seus 13 filhos — todos, curiosamente, com nomes iniciados pela letra “I”: Israel, Itamar… e os demais seguindo a mesma identidade. Uma marca singular, um símbolo de unidade familiar.

Outro sonho nutrido em oração era concluir seu ministério pastoral em Feira de Santana, a querida “Princesa do Sertão”. Deus lhe concedeu esse presente. Ali residiu, atuou como pastor em diversas congregações e colaborou na igreja-sede da Avenida Vasco Filho, no Bairro Brasília. Seu corpo descansa em solo feirense, embora suas raízes ministeriais também permaneçam firmes em Euclides da Cunha.

Ontem, 18 de fevereiro, completaram-se 16 anos de sua partida. Hoje, celebramos sua memória. “A vida não era dele; a vida voltou para quem a deu, o Grande Deus.” Essa certeza consola, sustenta e fortalece.

Somos gratos a Deus por termos tido um pai que nos ensinou o caminho do céu, o valor da ética, a importância da sinceridade, a prática diária da solidariedade. Um homem que estendia as mãos aos necessitados, que aconselhava com prudência, que vivia o que pregava.

Nossa gratidão também (in memorian) ao pastor José Marques dos Santos, pai na fé, companheiro inseparável de jornada. Diziam que até no modo de se vestir eram parecidos — usavam o tradicional chapéu da época, marca Prada — símbolo visível de uma amizade que transcendia o tempo.

Hoje, a família cresceu: filhos, netos, bisnetos, tataranetos, genros, noras — uma geração edificada sobre a Bíblia Sagrada, sobre princípios sólidos, sobre fé viva.

Fica o exemplo desse homem de Deus. Fica sua história. Fica sua voz ecoando na memória. E fica, acima de tudo, a esperança do reencontro.

Saudades… muitas saudades… mas também, eterna gratidão.


*Itamar Ribeiro é teólogo, professor acadêmico, jornalista, escritor, pedagogo e contador.

Moacir, Almira e netos em data aniversária (Foto Arquivo)

Foto – Facebook Pr. Ronaldo: Pastores José Marques dos Santos e Moacir Lopes de Souza – amigos inseparáveis

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