Por Itamar Ribeiro*
Há carros que nos levam para algum lugar. E há carros que nos levam de volta no tempo.
O Fusca pertence à segunda categoria.
No dia 16 de agosto de 2026, caminhando pela exposição de veículos antigos e usados realizada na Praia de Boa Viagem, em Recife, Pernambuco, reencontrei alguns Fuscas. Havia Fusca, Fuscão, modelos com teto solar e até um exemplar que ainda carregava o antigo taxímetro, lembrança de uma época em que esses pequenos carros também enfrentavam as ruas como táxis.
Foi o suficiente.
Bastou olhar para aqueles carros para que meu computador interno — aquele que guarda memórias, imagens e emoções — recebesse um verdadeiro upgrade. Voltei, por alguns instantes, a Salvador dos meus 22 ou 23 anos.
Era 1973.
Meu primeiro carro foi um Fusca 1.300, marrom, com os tradicionais para-choques cromados. Naquele tempo, eu residia em Salvador e era colaborador da Construtora Norberto Odebrecht. O salário daquele período permitia pagar as prestações, cuidar da manutenção e ainda desfrutar daquilo que, para um jovem, representava muito mais do que simplesmente possuir um automóvel.
Era liberdade.
Era independência.
Era desfilar pelas avenidas de Salvador ao volante do meu Fusca.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquele carro não transportava apenas uma pessoa. Transportava sonhos.
Depois vieram outros automóveis. Dentro da própria Volkswagen, tive um Passat, com seu motor potente e características bem diferentes do Fusca. Mais tarde, vieram veículos de outras marcas.
Mas existe uma diferença entre ter um carro e ter o primeiro carro.
O primeiro fica guardado em algum lugar especial da memória.
O pequeno alemão que conquistou o Brasil
A história do Fusca no Brasil começou antes da minha história com ele.
O modelo chegou ao país em 1950, ainda desmontado, vindo da Alemanha. Naquele início, a Volkswagen ainda não tinha fábrica instalada no Brasil, e a montagem era realizada pela Brasmotor.
Em 1953, a Volkswagen assumiu a montagem brasileira, inicialmente utilizando peças vindas da Alemanha. Poucos anos depois, veio um passo decisivo: em 3 de janeiro de 1959, começou oficialmente a produção nacional do Fusca, com peças brasileiras, em um galpão alugado no bairro do Ipiranga, em São Paulo.
A partir daí, o Fusca começou a fazer parte da paisagem brasileira.
E como fez!
Passou pelas ruas das grandes cidades, chegou ao interior, tornou-se carro de família, carro de trabalho, carro de estudante, carro de táxi e companheiro de milhares de brasileiros.
Também foi mudando com o tempo.
Vieram o motor 1.300, o 1.500, o 1.600, alterações na carroceria, nos vidros, nas lanternas e nos equipamentos. Houve até a versão com teto solar, lançada em 1965, que ganhou o curioso apelido de “Cornowagen” — motivo que levou muitos proprietários a fecharem posteriormente o teto.
Em 1967, o Fusca passou a utilizar o motor 1.300, ganhou vidro traseiro maior e sistema elétrico de 12 volts.
Em 1970, chegou o motor 1.500, com 52 cavalos.
E foi justamente nessa fase da história do modelo que ele também entrou na minha.
Em 1973, quando comprei meu Fusca 1.300 marrom, eu não imaginava que aquele automóvel faria parte das minhas lembranças por tantas décadas.
A indústria continuou avançando. Em 1975, surgiu o Fusca 1600-S, com carburação dupla e 65 cavalos. Em 1984, o motor 1.300 deixou de ser produzido e o modelo passou a contar com o motor 1.600, além de melhorias nos freios.
Em 1986, a Volkswagen encerrou a produção brasileira do Fusca.
Parecia o fim.
Mas não era.
Em 1993, o Fusca voltou a ser produzido no Brasil, durante o período da chamada Lei do Carro Popular. A experiência durou até 1996, quando a produção brasileira foi encerrada novamente, com a chamada Série Ouro. Depois disso, o modelo continuou sendo produzido no México.
O Fusca, entretanto, nunca deixou de ser produzido na memória dos brasileiros.
Uma batida na chaparia
Foi isso que senti em Boa Viagem.
Diante daqueles exemplares, aproximei-me de um Fusca e bati levemente na chaparia.
Que diferença!
A chapa daquele velho automóvel parecia falar.
Não era como a carroceria dos carros atuais, cada vez mais sofisticados, eletrônicos, silenciosos e tecnológicos.
Ali estava uma chapa que parecia ter história.
Talvez porque tivesse mesmo.
Aquele simples gesto me fez pensar no quanto o automóvel mudou e no quanto nós também mudamos junto com ele.
Hoje falamos em carros elétricos, inteligência embarcada, sensores, câmeras, conectividade e tantas outras tecnologias que, na juventude, pareciam pertencer apenas aos filmes de ficção científica.
O mundo automobilístico mudou.
Eu também mudei.
Aquele jovem que desfilava pelas avenidas de Salvador ao volante de um Fusca marrom já não é o mesmo homem que hoje visita uma exposição de carros antigos em Recife.
Mas uma coisa permaneceu.
A memória.
E talvez seja justamente por isso que o Fusca continua despertando tanta emoção.
Ele não precisa ser o mais veloz.
Não precisa ser o mais moderno.
Não precisa ter a tecnologia dos automóveis atuais.
O Fusca tem outra coisa.
Tem história.
Tem cheiro de garagem antiga, lembrança de família, viagem, trabalho, namoro, infância, juventude e tantas outras histórias que não cabem em uma ficha técnica.
Naquela exposição, entre tantos veículos, encontrei o meu passado.
Não era exatamente o meu Fusca.
Era apenas outro Fusca.
Mas, naquele instante, era como se fosse.
Olhei, toquei, lembrei e sorri.
E compreendi que certos automóveis não envelhecem.
Eles apenas ficam mais antigos.
Porque, na memória de quem os viveu, continuam novos.
O tempo passou. Vieram outros carros, outras tecnologias e uma nova era automobilística.
Hoje, os elétricos começam a ocupar cada vez mais espaço nas ruas brasileiras.
Mas há uma frase que talvez explique tudo:
o Fusca sempre será o Fusca.
E enquanto houver alguém disposto a contar sua história, ele continuará andando.
Mesmo quando estiver parado.
Porque alguns carros deixam de circular pelas ruas, mas nunca deixam de circular pela nossa memória.
Itamar Ribeiro* – escritor e jornalista

Foto: Divulgação

