Operação Compliance Zero: PF aponta suposto recebimento de vantagens por Jaques Wagner; senador nega irregularidades

Investigação autorizada pelo ministro André Mendonça cita apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões, repasses financeiros, uso de aeronaves e atuação em temas de interesse do Banco Master; parlamentar afirma estar tranquilo e diz que não favoreceu interesses privados.

A nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, teve como base uma investigação que aponta indícios de que o senador Jaques Wagner (PT-BA) teria recebido vantagens econômicas supostamente vinculadas ao banqueiro Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master. A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Wagner nega qualquer irregularidade, afirma não ser réu nem acusado formalmente e sustenta que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Investigação aponta apartamento e supostos benefícios

Segundo a representação da Polícia Federal encaminhada ao STF, há indícios de que o senador teria sido beneficiado, direta ou indiretamente, por intermédio de familiares, pessoas de confiança e empresas ligadas ao grupo econômico investigado.

Entre os elementos citados pelos investigadores está a negociação de um apartamento no residencial Poème Horto, localizado no bairro do Horto Florestal, área nobre de Salvador. De acordo com a PF, Wagner teria demonstrado interesse pelo imóvel e encaminhado informações do empreendimento ao banqueiro Augusto Lima, que posteriormente teria viabilizado a aquisição por meio de integrantes ligados ao núcleo empresarial do Banco Master.

Em entrevista à BandNews, o senador confirmou que pediu ao empresário que adquirisse a unidade temporariamente, alegando que pretendia recomprá-la futuramente para auxiliar sua filha na aquisição do imóvel. Wagner destacou que o apartamento jamais integrou seu patrimônio.

PF cita repasses e outras vantagens econômicas

A investigação também menciona repasses superiores a R$ 5,5 milhões destinados à BN Financeira, empresa administrada por familiares do parlamentar. Para os investigadores, a empresa ocuparia papel relevante no suposto fluxo de pagamentos direcionados ao núcleo familiar do senador.

Além disso, a Polícia Federal aponta o uso de aeronaves custeadas por Augusto Lima e pelo Banco Master, bem como a concessão de ingressos para eventos internacionais. Parte das informações foi obtida a partir da análise de aparelhos celulares apreendidos durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, realizada em novembro de 2025.

Mensagens e áudios extraídos dos dispositivos mostram, segundo a PF, conversas sobre deslocamentos em aeronaves disponibilizadas pelo banqueiro e a oferta de ingressos para um show em Los Angeles, nos Estados Unidos, destinados a familiares do senador.

Atuação legislativa entra no foco da apuração

Outro eixo da investigação trata da atuação parlamentar de Jaques Wagner em matérias consideradas de interesse do grupo econômico ligado ao Banco Master.

A Polícia Federal destaca a apresentação de emendas durante a tramitação de propostas relacionadas ao crédito consignado e à regulamentação do sistema financeiro. Na decisão que autorizou as medidas da operação, o ministro André Mendonça registra que a PF identificou interlocuções entre Wagner e Augusto Lima sobre temas regulatórios ligados à ampliação da margem consignável.

O senador, entretanto, rejeita qualquer acusação de favorecimento. Como exemplo, lembrou que, na condição de líder do governo no Senado, orientou voto contrário a uma proposta que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), medida que teria interesse direto do Banco Master.

“É normal que parlamentares sejam procurados por setores interessados em matérias em votação”, argumentou Wagner ao comentar mensagens trocadas com representantes do setor financeiro.

Dinheiro em espécie apreendido

Durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão na residência do senador, em Brasília, agentes federais encontraram cerca de US$ 49 mil em espécie, valor equivalente a aproximadamente R$ 250 mil.

Jaques Wagner afirmou que os recursos têm origem legal e foram adquiridos para viagens internacionais realizadas no exercício do mandato. Segundo o parlamentar, parte do montante corresponde a diárias oficiais pagas pelo Senado Federal e devidamente declaradas à Receita Federal.

De acordo com sua versão, os valores permaneciam guardados em cofre pessoal e estavam acondicionados em envelopes identificados com o timbre do Senado.

Defesa nega irregularidades

Em nota, a assessoria do senador reforçou que Wagner não foi denunciado, acusado ou transformado em réu em qualquer processo relacionado aos fatos investigados.

A defesa também afirmou que o apartamento mencionado pela Polícia Federal nunca pertenceu ao parlamentar e negou qualquer atuação em favor do Banco Master ou de outras instituições financeiras.

Já a defesa de Augusto Lima classificou as diligências realizadas pela Polícia Federal como desnecessárias, sustentando que o empresário tem colaborado com as investigações e que os fatos apurados são lícitos.

Investigação segue em andamento

A nona fase da Operação Compliance Zero permanece em curso e busca aprofundar a apuração sobre possíveis vantagens indevidas, relações financeiras e eventuais contrapartidas envolvendo agentes públicos e integrantes do grupo econômico investigado. Até o momento, não há denúncia formal apresentada pelo Ministério Público Federal contra o senador Jaques Wagner, que segue exercendo normalmente o mandato e a liderança do governo no Senado Federal.

Da Redação – Soteropolis Noticias

Foto: Lula Marques/Agencia Brasil

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