A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
Por Zadir Porto*
Não é recente e talvez, por isso mesmo, poucos saibam, mas um médico clínico geral, que deixou seu nome gravado na história política do estado do Amazonas, como governador, esteve na ponta da lista, cotado para ser candidato à Presidência da República. No entanto, o feirense Pedro de Alcântara Bacelar faleceu após uma injeção que lhe foi aplicada por um colega de profissão.
Feira de Santana, que no recente pleito geral não conseguiu eleger um só parlamentar para a Câmara Federal, nem mesmo renovar o mandato do seu único representante, já contou com expressivos nomes abrilhantando a seara política nacional na Capital da República, sem se falar no cenário estadual onde, também, embora com melhor performance este ano, não alcançou o patamar desejado e esperado. Esse ‘rabisco’ que nada tem, nem poderia ter de partidário, é para mexer nas páginas da história, talvez não tão contemporânea, também não tão vetusta, a ponto de não merecer ser folheada. Vale ressaltar que a Terra de Senhora Santana já teve dois governadores estaduais (João Durval Carneiro e Pedro Bacelar) e um deles chegou a ser fortemente cotado para a Presidência da República.
Pedro de Alcântara Bacelar, filho do casal português Paulino Bacelar e Maria Ferreira Bacelar, nasceu em Feira de Santana em 29 de junho de 1875, portanto há 151 anos e muito cedo foi estudar em Salvador, como era comum na época para os jovens oriundos de famílias abastadas. O município, com predominância da população rural, deveria ter em torno de 28 mil habitantes e poucas unidades escolares, o que justificava, plenamente, a migração de jovens para a capital, onde poderiam frequentar escolas de bom nível e ascender a profissões importantes. Foi o caso do jovem Pedro Bacelar que, depois de concluir os estudos secundários, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), formando-se em medicina aos 27 anos de idade em 1902. Em Salvador, casou-se com a bailarina Maria Augusta Tosta da Silva.
Como médico da Polícia Militar, ele se transferiu para o estado do Amazonas três anos depois, fixando residência na cidade de Humaitá, muito distante de Manaus, capital amazonense, onde granjeou enorme popularidade pelo seu trabalho como médico humanista. Tão querido pela população de Humaitá que teve seu nome lançado à Câmara de Vereadores e eleito. Em 1914, mais uma vez foi indicado, desta feita para concorrer à Assembleia Legislativa do estado do Amazonas, sendo eleito. Como deputado estadual, foi autor do projeto que criou, em 2 de outubro de 1914, o município de Porto Velho, hoje capital do estado de Rondônia, assim denominado em homenagem ao marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, nascido no Mato Grosso em 1865 e falecido no Rio de Janeiro em 1958, considerado o maior defensor da causa indígena no País, tanto que usou como lema para o seu trabalho de aproximação do índio brasileiro o slogan: “Morrer se preciso for, matar nunca”.
Reconhecido pelo seu trabalho em prol da sociedade, quer na medicina, quer na política, o médico Pedro de Alcântara Bacelar, que contava com a simpatia do presidente da República, Venceslau Brás, foi eleito governador do Amazonas em 14 de julho de 1916 e realizou uma administração elogiada, mesmo enfrentando um período crítico na região Norte do País, com a forte crise econômica gerada pela queda no preço da borracha, provocando grande desemprego e deixando centenas de seringueiros — trabalhadores oriundos do Nordeste — sem ter o que fazer. Além disso, para agravar o cenário socioeconômico, o Amazonas enfrentou a epidemia da influenza espanhola, que abateu, sem distinção de classe social, muitos amazonenses.
Pode-se dizer que a situação não foi bem mais grave graças, exatamente, ao governador. Médico clínico, conhecedor do avassalador avanço da doença, ele adotou medidas emergenciais, como a implantação de hospitais e outras unidades da saúde pública, bem como a distribuição de medicamentos, e acelerou a assistência à população periférica. Homem voltado para a literatura e as artes, destacava-se como renomado redator. Pedro Bacelar foi fundador do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas, restaurador da Biblioteca Pública, que havia sido destruída por um incêndio, dentre outras ações. A Aeronáutica, reconhecendo os bons serviços prestados à corporação, concedeu-lhe uma medalha. Na área da segurança pública, criou a Força Policial do Estado do Amazonas. Implantou o Palácio Rio Negro, que foi sede do governo do estado até 1959, posteriormente tombado em 1980 e transformado em Centro Cultural de Manaus.
A história do Centro Cultural (antigo Palácio Rio Negro) começou com a construção do belo prédio em estilo arquitetônico eclético (misto) como palacete residencial do empresário alemão Karl Waldemar, ao qual o feirense Pedro Alcântara adquiriu para ser a sede do governo estadual. Com muitas realizações em benefício da população amazonense e desfrutando de enorme prestígio político, o doutor Pedro de Alcântara Bacelar chegou a ter o nome fortemente cotado para concorrer à Presidência da República, mas faleceu aos 52 anos em 21 de abril de 1927. A causa teria sido uma injeção aplicada pelo colega, doutor Tanajura, fato que chegou a gerar especulações. Vale lembrar que, do matrimônio com a senhora Maria Augusta Tosta da Silva, o médico e político Pedro Alcântara Bacelar teve 10 filhos. Conforme o pesquisador feirense, também ator e diretor teatral José Fernando, o médico Pedro Bacelar foi o primeiro e até agora único feirense a ter o nome cogitado para a Presidência da República.
Por Zadir Marques Porto
Foto: Arquivo/ZMP
