Vorcaro, amor sem seco

Otoniel Saraiva*

Nos bastidores reluzentes de Brasília, onde o poder se embriaga de si mesmo, nasceu o arranjo perfeito. Não havia paixão carnal, flertes ideológicos ou apegos partidários. O amor que unia as cúpulas da República era puramente financeiro, uma devoção platônica e implacável ao cifrão, o verdadeiro “amor sem sexo” que move os moinhos da corrupção institucionalizada. Sob o codinome Vorcaro, o plano não escolhia bandeiras; a esquerda, o centro e a direita sentavam-se à mesma mesa, de mãos dadas, unidos pelo mesmo apetite hercúleo. O objetivo era cirúrgico: a compra sistemática de membros vitais dos Três Poderes para consolidar o maior golpe financeiro que a história do Brasil já testemunhara. No Legislativo, emendas e Medidas Provisórias eram encomendadas como pratos em um restaurante de luxo, moldando leis para blindar o fluxo de bilhões que escorria dos cofres públicos. No Executivo, canetadas estratégicas liberavam subsídios astronômicos e contratos fraudulentos sob o manto de falsos projetos de desenvolvimento nacional. A última peça do tabuleiro, no entanto, dependia do silêncio e da cumplicidade no Judiciário. Magistrados de alta plumagem recebiam suas cotas por meio de consultorias fictícias e blindagens jurídicas que engavetavam investigações antes mesmo que elas ganhassem as manchetes. Com os três pilares do Estado devidamente comprados e corrompidos, o sistema operava em perfeita harmonia. O dinheiro saía do Tesouro direto para fundos fantasmas no exterior, deixando o país de joelhos, enquanto os arquitetos do golpe brindavam à intangibilidade de seus cargos. Vorcaro provou que, quando o assunto é saquear uma nação, a luxúria pelo poder absoluto supera qualquer ideologia

Otoniel Saraiva é Economista*, Advogado e Ex Deputado Estadual pela Bahia

Foto: Divulgação

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