A manhã desta quarta-feira (23) transformou o Plenário Orlando Spínola, na Assembleia Legislativa da Bahia, em um espelho da alma baiana. Em uma sessão especial pautada pela emoção e pelo respeito ao diálogo inter-religioso, o Padre Lázaro Muniz, Pároco da Paróquia de Nossa Senhora das Candeias, em Pituaçu, foi agraciado com a Comenda 2 de Julho. A mais alta honraria do Legislativo baiano foi proposta pelos deputados Rosemberg Pinto (PT) e Olivia Santana (PC do B), celebrando a trajetória sacerdotal e uma vida inteira dedicada ao enfrentamento do racismo, à defesa da dignidade humana e à valorização da cultura afro-baiana.
Se a Bahia é, por excelência, o território do encontro, a composição da mesa da cerimônia foi a materialização dessa identidade. Lado a lado, autoridades de Estado e líderes espirituais formaram um mosaico de tolerância. Representando o governador Jerônimo Rodrigues, estava o secretário José Vieira Leal Neto, acompanhado de figuras centrais como a secretária de Promoção da Igualdade Racial, Ângela Guimarães, a ouvidora-geral Arany Santana, além de representantes da Defensoria Pública, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros.
Contudo, foi a representação religiosa que ditou o tom da sessão. Ao lado de autoridades católicas como o Padre Edson Menezes (reitor da Basílica do Bonfim) e Willian Justo (prior da Igreja Rosário dos Pretos), sentaram-se o Pastor Joel Zeferino (Igreja Batista Nazareth), o Pai Raimundo de Xangô (Centro Umbandista Paz e Justiça), a Ekedi Cinha (representando o Candomblé) e o Ogã Elias Conceição (Coordenador do Conirb). Tudo isso embalado pelas músicas entoadas pela cantora Juliana Ribeiro, que preencheu o plenário com ancestralidade.
As homenagens refletiram o impacto pastoral e social do Padre Lázaro. Em mensagem lida no plenário, a presidente da ALBA, deputada Ivana Bastos, definiu a trajetória do homenageado como “um sacerdócio dedicado ao cuidado com as pessoas e à valorização da identidade negra”. Padre Edson Menezes fez coro ao sentimento, descrevendo o colega de batina como um incansável construtor de pontes que facilita “a cultura do encontro e a convivência pacífica e fraterna”.
A deputada Olivia Santana quebrou protocolos e entregou um discurso sobre o papel da espiritualidade em tempos de ódio. Emocionada, ela ressaltou que a religião jamais pode ser um instrumento para aprofundar feridas.
“O Padre Lázaro nos mostra uma lição de vida e de resistência. É a prova viva de que é possível ser cristão, ser católico, e sentar-se à mesa com um babalorixá, com uma ialorixá. A religião só tem sentido para trazer a paz”.
O deputado Rosemberg Pinto, por sua vez, resgatou a atuação marcante de Padre Lázaro na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, definindo o espaço como um templo e como um reduto de memória e resistência.
“Seu compromisso com o diálogo inter-religioso e sua atuação contra o racismo demonstram a compreensão de que a fé não pode ser utilizada para separar aquilo que a sociedade precisa aprender a aproximar. A Bahia é negra, indígena, cristã e de matriz africana”.
Quando o Padre Lázaro Muniz tomou a palavra, o plenário silenciou para ouvir um manifesto em defesa da vida e da igualdade. Visivelmente tocado, o sacerdote ressignificou a própria homenagem, recusando-se a aceitá-la como um troféu de encerramento de carreira, mas sim como um combustível para as lutas que ainda precisam ser travadas.
O homenageado relembrou sua passagem pelo Rosário dos Pretos como uma verdadeira escola de espiritualidade e diálogo, reforçando que preservar o patrimônio é afirmar a própria existência e história de um povo. Com firmeza, Padre Lázaro conectou o Evangelho à urgência das pautas sociais.
“Não podemos falar de fraternidade sem falar de justiça. Não podemos falar de paz sem enfrentar a violência. Não podemos falar de diálogo sem combater a intolerância. Combater o racismo não é uma pauta periférica. É defender a pessoa humana, e afirmar que ninguém pode ser considerado inferior por causa da cor da sua pele”.
Reafirmando sua fé católica e seu compromisso inegociável com o Estado laico e a liberdade religiosa de todos os credos, o pároco encerrou a sessão especial projetando o futuro através das lentes do passado. Ao olhar para a Comenda 2 de Julho que agora carrega no peito, Padre Lázaro garantiu que não lembrará apenas do dia de hoje, mas de todos os homens e mulheres que vieram antes dele, pavimentando com suor e fé a liberdade que a Bahia, atualmente, ousa celebrar. (Ascom).
Foto: Ascom/Alba

