Há pessoas que partem da terra, mas jamais deixam o coração daqueles que aprenderam a amar através de seus gestos. Onze anos após sua despedida, a memória de Almira Ribeiro de Souza continua viva, inspirando gerações por sua dedicação à família, à igreja e aos mais necessitados.
Por Itamar Ribeiro*
Há aniversários que não são comemorados apenas com bolo, velas ou abraços. Alguns são celebrados em silêncio, entre lembranças, lágrimas discretas e uma saudade que o tempo jamais consegue apagar.
Se estivesse entre nós, nesse dia 16 de julho, minha mãe, Almira Ribeiro de Souza, completaria 97 anos de vida. Mas Deus, em sua soberana vontade, decidiu chamá-la para a eternidade quando ela tinha 86 anos. Já se passaram onze anos desde sua partida, mas há pessoas que nunca morrem por completo. Permanecem vivas nas histórias que contaram, nos ensinamentos que deixaram e, principalmente, no amor que semearam.
Hoje não escrevo apenas sobre minha mãe. Escrevo sobre uma mulher que fez da própria existência um ministério de serviço.
SUA HISTÓRIA
Nascida em Antas, no norte da Bahia, em 16 de julho de 1929, Almira cresceu em uma época em que a simplicidade era companheira inseparável da esperança. Ainda jovem conheceu aquele que seria seu companheiro de toda a vida: Moacir Lopes de Souza. Casaram-se, construíram uma família numerosa e iniciaram uma caminhada que jamais imaginariam o quanto marcaria tantas vidas.
Foi em Euclides da Cunha que Deus escreveu um novo capítulo de sua história.
Ali conheceram o pastor José Marques dos Santos e sua família. Da amizade nasceu a evangelização; da evangelização veio a conversão; e da conversão surgiu uma vida inteiramente dedicada ao Reino de Deus.
Ao lado do esposo, que mais tarde seria consagrado ao ministério pastoral, Almira nunca ocupou apenas o lugar de “esposa do pastor”. Ela era uma cooperadora incansável. Enquanto o marido pregava, ela acolhia. Enquanto ele conduzia o rebanho, ela fortalecia os corações.
Assim começou uma longa peregrinação ministerial por diversas cidades da Bahia.
Por onde passavam, deixavam marcas.
Ela foi porteira da igreja, recepcionista, dirigente de Círculo de Oração, conselheira, visitadora, intercessora e, acima de tudo, serva de Deus.
Mas talvez seu maior cargo nunca tenha recebido um título oficial.
Almira era especialista em cuidar de pessoas.
Sua casa possuía uma característica muito peculiar: ninguém saía dali de mãos vazias.
Se faltava dinheiro, dividia o alimento.
Se faltava alimento, oferecia uma palavra.
Se faltava esperança, entregava uma oração.
Sua despensa parecia obedecer ao mesmo princípio do milagre da viúva de Sarepta: sempre havia alguma coisa para repartir.
Sua maior riqueza nunca esteve nos bens materiais, mas na disposição de servir.
Ao lado do pastor Moacir Lopes, percorreu diferentes campos ministeriais até estabelecer residência em Feira de Santana, onde ambos contribuíram para o fortalecimento da Assembleia de Deus, trabalhando ao lado do pastor Severino Soares, da irmã Nilda e de tantos obreiros dedicados.
Nas congregações do Tomba, Jomafa, Areial, Conceição I e também na sede da igreja ADEFS, Almira tornou-se referência entre as irmãs do Círculo de Oração. Ali construiu amizades sinceras com mulheres igualmente dedicadas, como Maria Alice, Marli, Débora (AMA),irmã Juracy e tantas outras companheiras de caminhada.
Sua liderança nunca foi marcada pela imposição.
Era marcada pelo exemplo.
Enquanto muitos ensinavam com discursos, ela ensinava vivendo.
Ao lado do esposo, gerou uma família de quatorze filhos — doze permanecem entre nós, enquanto dois partiram para a eternidade. Porém, seu legado ultrapassou os limites da própria casa.

Almira e seus primogênitos Israel e Itamar
Quantos filhos espirituais nasceram de suas orações?
Quantas famílias permaneceram firmes por causa de uma visita?
Quantas lágrimas foram enxugadas por uma palavra simples, dita no momento certo?
Essas respostas somente Deus conhece.
SUA SAUDE
Com o passar dos anos, veio a prova mais difícil.
A mulher de memória admirável começou a perder as próprias lembranças.
O Alzheimer chegou silencioso.
A doença apagava recordações da mente, mas nunca conseguiu apagar aquilo que Deus havia escrito em sua alma.
Mesmo limitada pela enfermidade, ainda havia algo que despertava sua sensibilidade: os hinos da Harpa Cristã e a Palavra de Deus (Bíblia).
No leito hospitalar no EMEC, era comum cantarmos os louvores que marcaram nossa família desde o tempo dos cultos domésticos, tradição que meus pais fizeram questão de cultivar dentro de casa.
Jamais esquecerei aqueles dias.
No dia 3 de dezembro de 2015, ela abriu lentamente os olhos e os encontrou com os meus.
Foi um olhar silencioso.
Nenhuma palavra foi pronunciada.
Mas havia uma conversa inteira acontecendo entre duas almas.
Dois dias depois, enquanto acariciava sua cabeça e cantava baixinho o hino “Tu És Fiel, Senhor”, novamente seus olhos se abriram.
Lágrimas escorreram por seu rosto.
Enxuguei-as delicadamente com um lenço branco.
Naquele quarto de hospital não havia apenas equipamentos médicos.
Havia a presença consoladora de Deus.
Naquele instante compreendi que existem lágrimas que não traduzem dor.
Traduzem eternidade.
CAMINHADA DE FÉ
Durante toda sua caminhada, Almira permaneceu fiel ao pastor José Marques dos Santos, à irmã Isabel Glória dos Santos — carinhosamente conhecida como irmã Zizim —, ao ministério que Deus lhe confiou através do pastor Moacir Lopes e, acima de tudo, permaneceu fiel ao Senhor Jesus Cristo.
Participar das reuniões ministeriais daConvenção – CEADEB era motivo de alegria. Voltava para casa entusiasmada, compartilhando tudo o que aprendera durante aqueles dias de comunhão, como quem trazia novas sementes para plantar na igreja local.
DESPEDIDA
Em 7 de dezembro de 2015, Deus decidiu encerrar sua missão terrena.
Terminava sua caminhada.
Começava sua recompensa.
Ao olhar para sua trajetória, não encontro outra expressão que a defina melhor do que as palavras do apóstolo Paulo:
“Combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé.”
Esse versículo parece resumir sua biografia.
Hoje compreendo que algumas pessoas não medem sua importância pelos cargos que ocuparam, mas pelas vidas que transformaram.
As mãos de minha mãe nunca foram famosas.
Foram abençoadoras.
Seus pés nunca caminharam sobre tapetes vermelhos.
Percorreram estradas de barro para anunciar o Evangelho.
Seus joelhos não buscaram conforto.
Buscaram altares de oração.
Seus olhos choraram pelos aflitos.
Seus braços acolheram os esquecidos.
Sua voz fortaleceu desanimados.
Seu coração jamais aprendeu a negar ajuda.
Ela viveu para servir.
E talvez seja justamente isso que torna algumas pessoas inesquecíveis.
Hoje resta a saudade.
Mas resta também a gratidão.
Gratidão por ser filho de uma mulher cuja vida foi um sermão sem necessidade de púlpito.
Enquanto houver alguém lembrando de seu testemunho, Almira Ribeiro continuará pregando.
Não mais com palavras.
Mas com o legado.
Tenho a convicção de que ela agora descansa na presença do Senhor, aguardando o glorioso dia da ressurreição. E alimentamos a esperança cristã de que, na eternidade, voltaremos a nos encontrar, quando toda lágrima será enxugada e a morte já não existirá.
Até lá, sua história permanece viva entre nós, lembrando que uma existência dedicada a Deus e ao próximo jamais termina. Ela apenas atravessa o tempo e alcança a eternidade.
Tenho convicção de que ela concluiu sua missão com a mesma fidelidade com que viveu cada um de seus dias.
Enquanto escrevo estas linhas com lágrimas e lágrimas nos olhos, imagino que, no céu, ela já não dobra os joelhos para pedir. Agora contempla, face a face, aquele a quem ela serviu durante toda a vida.
E nós, que permanecemos nesta caminhada, seguimos inspirados pelo exemplo de uma mulher cujas mãos jamais voltaram vazias, porque aprenderam que a maior riqueza de um cristão está naquilo que oferece aos outros.
Parabéns, mãe (in memorian), pelos seus 97 anos.
O calendário marca mais um aniversário.
O céu, porém, celebra uma vida que transformou muitas outras.
E eu Itamar continuo agradecendo a Deus pelo privilégio de ser filho de uma mulher que fez do amor ao próximo a mais bela pregação de sua existência. Em breve ver-nos-emos. Saudades, Saudades, Saudades…

Autor: Itamar Ribeiro (filho)*

