Capítulo II – Lençóis Maranhenses: onde Deus desenhou o impossível

De Barreirinhas a Santo Amaro, passando por Atins e pelo Rio Preguiças, nossa família descobriu que existem lugares que nenhuma fotografia consegue traduzir.

Por Itamar Ribeiro*

Promessa feita é promessa cumprida, seguimos viagem.

Depois de nos encantarmos com a história, a arquitetura e a cultura de São Luís, era chegada a hora de conhecer aquele que, para muitos, é o maior espetáculo da natureza brasileira: os Lençóis Maranhenses.

Confesso ao leitor que nenhuma fotografia, nenhum vídeo e nenhum documentário conseguem revelar a verdadeira dimensão daquele cenário. É preciso estar lá. É preciso sentir a areia fina escorrendo entre os pés, contemplar o azul cristalino das lagoas e perceber que a natureza é capaz de construir obras que desafiam qualquer imaginação humana.

Na manhã do dia 1º de julho de 2026, deixamos São Luís em direção a Barreirinhas, principal porta de entrada para o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Foram aproximadamente 250 quilômetros de viagem, percorridos em cerca de quatro horas. A cada quilômetro aumentava nossa expectativa. Afinal, estávamos prestes a conhecer um dos destinos turísticos mais admirados do mundo.

A aventura começa antes mesmo de chegar

Quem imagina que basta colocar o endereço no GPS e seguir viagem logo descobre que os Lençóis Maranhenses exigem respeito à natureza.

Os passeios acontecem exclusivamente em veículos com tração nas quatro rodas.

Em Barreirinhas, os tradicionais “toyoteiros” — motoristas especializados que conduzem robustas caminhonetes Toyota adaptadas para enfrentar trilhas de areia — são verdadeiros conhecedores da região. Além deles, todos os roteiros são acompanhados por guias credenciados pelo ICMBio, órgão responsável pela preservação do parque e pela orientação dos visitantes.

Antes mesmo de entrar nas dunas, já percebemos que ali o turismo caminha lado a lado com a conservação ambiental.

Transporte – os Toyoteiros

Circuito Lagoa Bonita: um cenário criado pelo Arquiteto do Universo

Nosso primeiro passeio foi para o famoso Circuito Lagoa Bonita.

A emoção começa ainda na subida da grande duna que dá acesso ao mirante natural.

Cada passo exige esforço.

A areia fofa parece testar nossa resistência.

Mas basta chegar ao topo para entender que todo o esforço valeu a pena.

Diante dos nossos olhos surgiu uma paisagem impossível de ser descrita com absoluta fidelidade.

Um verdadeiro oceano de dunas brancas, moldadas pelo vento ao longo de milhares de anos.

Entre elas, lagoas de águas cristalinas refletindo o céu em diferentes tonalidades de azul, verde-esmeralda e turquesa.

Foi impossível não permanecer alguns minutos em silêncio.

Ali compreendi por que aquele lugar recebeu o nome de Lençóis Maranhenses.

Vistas do alto, as dunas parecem enormes lençóis brancos estendidos sobre a terra. As depressões entre elas se transformam, durante o período das chuvas, em piscinas naturais de água doce absolutamente transparentes.

É uma obra-prima da criação.

Não existe engenheiro.

Não existe arquiteto.

Não existe artista capaz de reproduzir tamanha perfeição.

Somente o Criador do Universo poderia desenhar um cenário tão extraordinário.

A Lagoa Bonita abriga algumas das dunas mais altas de todo o parque e proporciona uma das vistas panorâmicas mais impressionantes dos Lençóis Maranhenses.

Quem visita aquele lugar leva consigo muito mais do que fotografias.

Leva um sentimento de gratidão.

Lagoa Bonita (águas de chuvas) e por do sol

Segundo dia: Atins e o encanto das águas cristalinas

No dia 2 de julho, seguimos rumo ao charmoso distrito de Atins e ao famoso Canto de Atins.

Novamente a natureza parecia querer nos surpreender.

Visitamos a deslumbrante Lagoa das Esmeraldas, cuja coloração lembra uma pedra preciosa lapidada pela própria natureza.

Depois conhecemos a belíssima Lagoa do Encontro, onde céu, areia e água parecem formar uma única pintura.

O vento constante refresca o visitante enquanto as dunas desenham novas formas a cada estação.

É um lugar onde o tempo desacelera.

Ninguém tem pressa.

Todos apenas contemplam.

Santo Amaro: um espetáculo ainda mais preservado

Na sexta-feira, 3 de julho, seguimos para Santo Amaro do Maranhão, considerado por muitos o trecho mais preservado dos Lençóis Maranhenses.

Antes do passeio, todos os visitantes realizam um cadastro e pagam a taxa municipal de acesso ao parque, procedimento que ajuda na conservação ambiental e no controle da visitação.

Percorremos o Circuito Betânia, conhecendo a Lagoa do Maçarico, a Lagoa da Placa e a encantadora Lagoa da Pedra.

Cada lagoa possui características próprias.

Algumas impressionam pela transparência.

Outras pela profundidade.

Há aquelas em que o azul parece infinito.

Em outras, o verde-esmeralda domina completamente a paisagem.

No final da tarde assistimos ao pôr do sol sobre as dunas.

Poucas vezes na vida presenciei um espetáculo tão grandioso.

À medida que o sol desaparecia no horizonte, a areia mudava de cor, passando do branco intenso para tons dourados, alaranjados e avermelhados.

Era como se o próprio céu aplaudisse o encerramento daquele dia inesquecível.

Lagoa da Placa

Navegando pelo Rio Preguiças

No sábado, 4 de julho, embarcamos em uma moderna lancha voadeira para percorrer o famoso Rio Preguiças.

Foi um passeio diferente, mas igualmente encantador.

Nossa primeira parada aconteceu em Vassouras, conhecida como a Tenda dos Macacos.

Os simpáticos primatas já estão acostumados com a presença dos visitantes e proporcionam momentos divertidos, especialmente para as crianças.

Seguimos depois até o povoado de Mandacaru, onde está instalado um importante farol de sinalização marítima e uma base de apoio da Marinha do Brasil.

Do alto do farol é possível contemplar uma das paisagens mais bonitas da região, onde rio, manguezais, vegetação e oceano se encontram em perfeita harmonia.

Base da Marinha do Brasil (Farol no povoado de Mandacaru)

Turismo com responsabilidade

Algo que merece destaque é a excelente organização encontrada em toda a região dos Lençóis Maranhenses.

Os municípios mantêm fiscalização permanente, trabalhando em parceria com o ICMBio para garantir a preservação desse patrimônio natural.

Existem regras claras para acesso ao parque.

Entre elas, destaca-se a proibição da entrada de bebidas alcoólicas em diversos circuitos, além da obrigatoriedade de utilização de veículos autorizados e condutores credenciados.

São medidas que garantem que futuras gerações também possam contemplar essa maravilha da natureza.

Barreirinhas: o coração do turismo nos Lençóis

Com população estimada em mais de 68 mil habitantes, Barreirinhas consolidou-se como a principal porta de entrada dos Lençóis Maranhenses.

Todos os anos, centenas de milhares de turistas brasileiros e estrangeiros escolhem a cidade como base para explorar o parque.

A estrutura turística impressiona.

São centenas de veículos credenciados, motoristas experientes, guias especializados, agências de turismo, passeios terrestres, fluviais e até voos panorâmicos para quem deseja admirar os Lençóis do alto.

A rede hoteleira atende desde viajantes que procuram simplicidade até aqueles que buscam conforto e sofisticação.

Nossa família foi muito bem acolhida na aconchegante Pousada Murici, cuja hospitalidade contribuiu para tornar a experiência ainda mais agradável.

Sabores que representam o Maranhão

A gastronomia foi outro capítulo inesquecível.

O camarão preparado na brasa, a tradicional peixada maranhense, a torta de caranguejo e o famoso arroz de cuxá revelam a riqueza dos sabores locais.

Cada refeição parecia completar a experiência de conhecer o Maranhão.

É impossível visitar Barreirinhas sem voltar para casa levando também lembranças dos aromas e temperos da culinária regional.

Muito mais que uma viagem

No domingo, 5 de julho, iniciamos nosso retorno para São Luís.

Levávamos malas um pouco mais pesadas, não pelas compras, mas pelas lembranças.

Na segunda-feira, 6 de julho, chegou o momento da despedida definitiva.

Eu e minha família seguimos de volta para Salvador.

Aline, Tiago e o pequeno Tiaguinho retornaram para Recife.

Enquanto o avião decolava, uma pergunta ecoava silenciosamente em meu coração:

“Que darei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?”

A resposta veio imediatamente.

Gratidão.

Os Lençóis Maranhenses não são apenas um destino turístico.

São um convite para contemplar a grandeza da criação, fortalecer os laços familiares, renovar a esperança e compreender que existem lugares onde Deus parece ter assinado Sua obra com um carinho especial.

Se algum dia você tiver a oportunidade de conhecer esse paraíso, não adie.

Prepare a câmera fotográfica, leve roupas leves e disposição para caminhar.

Mas, acima de tudo, leve um coração aberto.

Porque os Lençóis Maranhenses não encantam apenas os olhos.

Eles transformam a alma.

Fim. Ou melhor… até a próxima viagem.

Itamar, Ana, Aline, Tiago e Tiaguinho – expedição familia

Veículo (lancha) que faz o transfer dos passageiros pelo rio Preguiça para as os Lençóis Maranhenses

Itamar Ribeiro, jornalista e escritor*

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