Por Itamar Ribeiro*
Primeiro confronto do segundo turno na Band foi marcado por perguntas repetidas, ataques pessoais e respostas evasivas. Para o eleitor, ficou a pergunta: onde estavam as propostas para governar o Brasil?
ência do presidente lembrava uma radiola com a agulha presa, repetindo o mesmo trecho. O problema é que a repetição da pergunta, por si só, não substitui uma resposta fundamentada nem esclarece todos os pontos de uma questão.
Do outro lado, Flávio também recorreu a assuntos relacionados ao governo petista, especialmente às suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e à lobista Roberta Luchsinger.
Em vários momentos, o debate parecia girar em círculos: um candidato levantava uma acusação, o outro desviava para um assunto diferente e, pouco depois, a discussão retornava ao ponto inicial. O eleitor que esperava esclarecimentos ficou, muitas vezes, diante de mais perguntas do que respostas.
Acusações ocuparam o espaço das propostas
Outro episódio envolveu a compra de um imóvel que, segundo Lula, custou R$ 10 milhões, com parte do pagamento associada a recursos do Banco de Brasília (BRB), instituição envolvida no caso Master.
Flávio respondeu que adquirir um bem com o resultado do próprio trabalho não seria problema e direcionou as críticas ao filho do presidente. A discussão, porém, não produziu um esclarecimento específico sobre a questão do BRB.
Também chamou a atenção o questionamento de Lula sobre o voto de Flávio, em 2009, contrário a uma proposta de ampliação da licença-maternidade das funcionárias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O presidente perguntou o que o senador teria contra as mulheres.
Flávio negou qualquer postura contrária às mulheres, citou a esposa e as filhas, mas deslocou a discussão para Roberta Luchsinger. Lula insistiu na pergunta sobre o voto, sem obter uma explicação específica do adversário.
São questões que merecem respostas objetivas. Quando um candidato é questionado sobre uma decisão tomada no exercício de um mandato, o eleitor tem o direito de conhecer as razões que orientaram seu posicionamento. O mesmo princípio vale para as acusações dirigidas ao outro candidato: elas precisam ser acompanhadas de informações verificáveis, e não apenas de insinuações.
De Milei aos hospitais do Rio: e o Brasil?
O presidente também perguntou a Flávio se o senador considera o presidente argentino Javier Milei um modelo de governo e se adotaria medidas semelhantes às defendidas pelo argentino para cortar gastos públicos.
Flávio não respondeu diretamente se tem Milei como referência. Preferiu criticar aliados internacionais de Lula, citando Nicarágua, Venezuela e Irã, além de prometer um “tesouraço na corrupção”.
Em outro momento, os dois trocaram acusações envolvendo familiares, pessoas ligadas a grupos criminosos e condenados em escândalos de corrupção. Mais uma vez, a discussão se afastou daquilo que deveria ser central: o projeto de governo de cada candidato.
Combater a corrupção, reduzir despesas públicas e melhorar os serviços essenciais são compromissos que precisam ir além de slogans. O cidadão quer saber como essas medidas serão executadas, quais prioridades serão adotadas e quais resultados poderá esperar.
O mesmo vale para a saúde pública, a educação, a segurança, o emprego, a renda e a infraestrutura. São problemas que afetam milhões de brasileiros e exigem propostas claras, viáveis e acompanhadas de explicações sobre custos e prioridades.
O eleitor merecia mais
A TV Bandeirantes ofereceu aos candidatos um espaço importante para apresentar suas ideias e confrontar suas visões de país. A expectativa era de um debate capaz de ajudar o eleitor a decidir, especialmente aquele que ainda está indeciso ou que não compareceu às urnas no primeiro turno.
Entretanto, a sucessão de ataques pessoais e perguntas repetidas ocupou boa parte do tempo. Houve momentos em que os candidatos se afastaram da discussão programática e pareceram mais preocupados em produzir frases de efeito do que em esclarecer questões relevantes para a população.
E a plateia? Os aplausos fizeram parte do espetáculo, mas a reação dos presentes não pode ser confundida com uma avaliação de todos os brasileiros. Quem assistia de casa precisava de argumentos, dados e compromissos concretos para avaliar quem está mais preparado para governar.
O que esperar do próximo debate?
É difícil não lamentar que um encontro tão importante, realizado na reta final da eleição, tenha deixado tantas questões sem respostas satisfatórias. Não se trata de exigir que os candidatos concordem entre si, mas de cobrar que apresentem argumentos consistentes e expliquem suas decisões.
O Brasil não precisa de atores políticos disputando o melhor desempenho no palco. Precisa de candidatos conscientes da responsabilidade de ocupar a Presidência da República pelos próximos quatro anos.
Se a expectativa era assistir a um confronto de propostas, o que se viu ficou aquém dela. Em vez de um debate capaz de esclarecer o eleitor, tivemos um espetáculo de acusações, provocações e respostas incompletas.
Resta esperar que o próximo encontro, previsto na programação eleitoral, ofereça mais conteúdo e menos encenação. Afinal, a eleição não é um programa de entretenimento, e o destino do país não pode ser tratado como uma disputa para ver quem constrange mais o adversário.
O eleitor brasileiro merece respeito, clareza e propostas. Governar o Brasil exige muito mais do que vencer um debate na televisão.
Itamar Ribeiro-Jornalista*
