Por Itamar Ribeiro
A política não é feita apenas de vitórias eleitorais. Ela é construída, sobretudo, pela capacidade de transmitir coerência, previsibilidade e confiança ao eleitorado. Em uma democracia consolidada, mudar de estratégia faz parte do jogo político. O problema surge quando essas mudanças se tornam frequentes a ponto de criar a percepção de indecisão.
A recente análise publicada pelo jornalista Luiz Santos, editor do portal Conectado News, sobre a trajetória do vice-prefeito de Feira de Santana, Pablo Roberto (PSDB), traz uma reflexão oportuna sobre esse tema. Ainda que se possa concordar ou discordar de suas conclusões, o debate proposto merece atenção porque extrapola a figura de um único agente político e alcança uma questão mais ampla: como se constrói uma liderança capaz de resistir ao tempo e às mudanças do cenário eleitoral?
Conheci Pablo Roberto quando exercia o mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa da Bahia. Em diferentes momentos conversamos sobre política nos corredores da Casa, na sala do cafezinho e também no tradicional restaurante da Assembleia. Sempre percebi nele disposição para o diálogo e interesse em compreender os desafios da administração pública.
Naquele período, um importante dirigente histórico do PSDB baiano, em conversa reservada, fez uma observação que nunca esqueci. Disse-me que Pablo representava um dos maiores expoentes da nova geração política de Feira de Santana e possuía todas as condições para chegar ao comando do Executivo municipal. A avaliação partia de alguém experiente, acostumado a acompanhar a formação de lideranças.
Passados alguns anos, Pablo consolidou uma trajetória respeitável. Foi vereador entre os mais votados da cidade, secretário municipal em áreas estratégicas, deputado estadual, vice-prefeito e secretário de Educação. Poucos políticos de sua geração acumularam experiências administrativas tão diversificadas em um espaço relativamente curto de tempo.
Entretanto, a política também é construída por símbolos. As sucessivas mudanças de rota eleitoral observadas nos últimos anos — ainda que justificadas por acordos partidários, estratégias de grupo ou circunstâncias do momento — acabam produzindo interpretações distintas no eleitorado. Enquanto alguns enxergam maturidade e capacidade de composição, outros percebem hesitação ou falta de definição quanto ao projeto político pessoal.
Essa diferença de percepção é justamente o ponto central do debate.
Mais importante do que disputar uma eleição é construir um projeto político duradouro. Lideranças sólidas não se formam apenas pelo acúmulo de cargos, mas pela consistência das decisões tomadas ao longo da carreira. O eleitor tende a valorizar dirigentes que demonstram clareza de propósito e compromisso com um objetivo definido.
Essa reflexão, contudo, não deve se limitar ao caso de Pablo Roberto.
Feira de Santana vive, há alguns anos, um fenômeno que merece preocupação. A cidade, segunda maior da Bahia e um dos principais polos econômicos do Nordeste, enfrenta dificuldades para renovar seu quadro de lideranças políticas. Em diferentes eleições, observa-se o fortalecimento de candidatos oriundos de outras regiões, enquanto representantes locais encontram obstáculos para consolidar projetos de maior alcance.
Historicamente, Feira revelou nomes que ocuparam posições relevantes na política municipal, estadual e federal. Hoje, porém, a renovação ocorre de maneira mais lenta do que seria desejável. O resultado é uma representatividade que, muitas vezes, não corresponde ao peso econômico, populacional e político do município.
A questão, portanto, vai além das escolhas individuais de qualquer liderança. O verdadeiro desafio é compreender por que uma cidade com tamanha importância ainda encontra dificuldades para formar e sustentar novos protagonistas da política baiana.
Talvez seja o momento de partidos, lideranças e sociedade refletirem sobre essa realidade. A renovação política exige planejamento, formação de quadros, fortalecimento das instituições partidárias e, principalmente, disposição para pensar projetos de longo prazo, e não apenas estratégias voltadas para a eleição seguinte.
Pablo Roberto continua sendo um político jovem e reúne credenciais para desempenhar papéis ainda mais relevantes na vida pública. Seu futuro dependerá, como ocorre com qualquer liderança, da capacidade de transformar experiência administrativa em confiança política e de converter decisões estratégicas em um projeto consistente perante o eleitorado.
No fim das contas, a política oferece inúmeras oportunidades de recomeço. Mas ela também ensina que credibilidade é um patrimônio construído lentamente e preservado por meio da coerência entre discurso, decisões e propósito. É justamente essa coerência que diferencia uma candidatura promissora de uma liderança verdadeiramente consolidada.
Itamar Ribeiro – jornalista e analista político*

