Farinha pouca, poder primeiro: a guerra silenciosa pela chapa majoritária na Bahia

Negar a política virou o novo jeito de fazer política, enquanto alianças mudam de lado antes mesmo do apito oficial da campanha

Na Bahia, quem ainda acredita em encontros “despretensiosos” entre líderes políticos talvez precise revisar o manual da ingenuidade. A disputa pela formação da chapa majoritária nas eleições deste ano entrou em fase pesada, ruidosa nos bastidores e silenciosa no discurso público. Todos conversam, todos se encontram, e quase ninguém admite que o assunto é política — justamente quando tudo é política.

Em recente entrevista ao BNews, no programa de Zé Eduardo, o retrato foi traçado sem maquiagem: o jogo está bruto, alto, e regido pela velha máxima do farinha pouca, meu pirão primeiro. Nomes como Jaques Wagner (PT), Jerônimo Rodrigues (PT), José Ronaldo (União Brasil), Zé Cocá (PP) e ACM Neto (União Brasil) circulam no mesmo tabuleiro, ainda que fingindo disputar partidas diferentes.

O caso de José Ronaldo é emblemático. Ao atravessar Feira de Santana para sentar-se com Jaques Wagner e Jerônimo, a justificativa oficial foi de que “não se falou de política”. A pergunta inevitável ecoou: falou-se de quê, então? Golfe, boliche, receitas de domingo? Evidente que não. O gesto, por si só, carrega o peso de uma sinalização clara: Feira de Santana voltou ao radar do PT, depois de ter sido, segundo aliados, descartada de forma equivocada em 2022 — erro que custou caro ao projeto de ACM Neto.

Na mesma trilha segue Zé Cocá, que, mesmo vestindo as cores do União Brasil até ontem, hoje já transita com naturalidade no campo governista. Beijos, abraços e discursos amistosos ficaram para a fotografia. Na prática, o alinhamento é com quem detém o poder. E a lógica é simples, quase cínica: “eu vou até aqui com você, mas dali em diante sigo com quem pode me garantir obra, recurso e inauguração”. Moral da história? Quem governa, larga na frente.

O capítulo mais tenso, no entanto, está reservado à disputa pelo Senado. Angelo Coronel (PSD) esticou a corda, tentou garantir espaço e recusou o papel de figurante. A proposta de suplência, com promessa futura de mandato, não colou. Coronel foi a Brasília, conversou, acenou, pressionou — mas encontrou portas entreabertas e outras definitivamente fechadas. No meio do caminho, nomes foram sendo descartados, como Marcelo Nilo, que já rondava o tema há meses, embora o desfecho fosse, para muitos, previsível.

Enquanto isso, Otto Alencar observa. Sentado, calculista, sem pressa. Espera para ver quem chega inteiro ao final dessa corrida de desgaste. Porque, nesse jogo, não vence quem fala mais alto, mas quem sobrevive ao empurra-empurra das conveniências.

No fim das contas, a chapa majoritária na Bahia está longe de ser apenas uma composição eleitoral. Ela é o retrato cru de uma política em que afinidade dura até a próxima curva e onde o discurso público raramente acompanha a verdade dos bastidores. Negar a política virou estratégia. Mas ninguém se engane: nunca se fez tanta política — e tão dura — como agora. (Da Redação-Soteropolis Noticas)

Foto: BNews/Divulgação

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