Feira de Santana, 193 anos: uma cidade que também me adotou

Neste 18 de setembro, a Princesa do Sertão celebra 193 anos de emancipação político-administrativa. Mais do que recordar uma data, é tempo de reverenciar uma história construída por gerações e agradecer à cidade que também passou a fazer parte da minha própria história.

Por Itamar Ribeiro*

Uma história que começou entre caminhos, tropas e fé

Feira de Santana nasceu do encontro de caminhos.

Antes de se transformar em uma das mais importantes cidades do interior brasileiro, a região era marcada pela criação de gado, pelas estradas percorridas por tropeiros, boiadeiros e comerciantes e pela existência de aguadas que favoreciam a passagem e a permanência daqueles que cruzavam o sertão.

No século XVIII, o casal Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandão esteve ligado à formação da Fazenda Sant’Anna dos Olhos D’Água e à construção de uma capela dedicada a Senhora Santana e São Domingos. Em torno daquele espaço religioso e das rotas comerciais foi crescendo o povoado que daria origem à Feira de Santana.

A feira, inicialmente marcada pelo comércio de gado e de mercadorias, tornou-se o coração econômico daquele território. Era gente chegando, partindo, negociando, trocando experiências e ajudando a construir, pouco a pouco, a identidade de uma cidade que aprendeu desde cedo a viver do movimento.

18 de setembro: a emancipação

A história política de Feira de Santana tem uma particularidade que merece ser lembrada.

O município foi criado oficialmente em 9 de maio de 1833, mas foi em 18 de setembro daquele mesmo ano que ocorreu a instalação do governo municipal, com a organização da Vila e da Câmara Municipal. A emancipação representou a separação administrativa de Cachoeira.

Por isso, o dia 18 de setembro se consolidou como o Dia da Cidade.

Quarenta anos depois, em 16 de junho de 1873, a então Vila foi elevada à categoria de cidade, pela Lei Provincial nº 1.320. Essa diferença entre as duas datas explica parte das discussões históricas sobre o aniversário de Feira de Santana. Hoje, a data de 18 de setembro é a referência oficial para a celebração do aniversário da cidade.

A feira que virou cidade

Há uma palavra que acompanha Feira de Santana desde a sua origem: movimento.

Movimento de pessoas, de animais, de mercadorias, de ideias e de oportunidades.

A localização privilegiada fez da cidade um grande ponto de ligação entre Salvador, o Recôncavo e o sertão. A vocação comercial se fortaleceu ao longo dos anos e ajudou Feira a se transformar em um dos principais centros econômicos do interior baiano. A própria história oficial do município destaca a importância das feiras livres, do comércio de gado e das rotas utilizadas por tropeiros e comerciantes na formação da cidade.

Depois vieram a ferrovia, a expansão urbana, as rodovias, a industrialização e o crescimento do comércio e dos serviços.

A criação do Centro Industrial do Subaé, na segunda metade do século XX, acrescentou uma nova dimensão à economia feirense e consolidou a cidade como importante polo industrial e regional.

Feira cresceu sem perder completamente a memória de suas origens.

A Princesa do Sertão

A cidade ganhou um título que atravessou gerações: Princesa do Sertão.

A denominação está associada à visita de Ruy Barbosa à cidade, em 1919, durante sua campanha presidencial. A expressão passou a traduzir, no imaginário baiano, a importância econômica e regional de Feira de Santana.

Mas talvez nenhuma definição seja suficiente para traduzir aquilo que Feira representa para quem nasceu aqui — e também para quem, como eu, chegou de outros caminhos e encontrou nesta terra um lugar para construir parte de sua vida.

Uma cidade que continua crescendo

Feira de Santana chega aos seus 193 anos como uma cidade de grande dimensão econômica, social, educacional e cultural.

Os dados mais recentes disponíveis do IBGE apontam uma população estimada em 660.806 habitantes em 2025, confirmando a dimensão alcançada pelo município.

A cidade também se destaca pela força do comércio, dos serviços, da indústria, da educação, da saúde e, sobretudo, pela sua posição estratégica como importante entroncamento rodoviário do Nordeste.

Mas uma cidade não pode ser medida apenas por números.

Por trás de cada avenida, cada comércio, cada empresa, cada universidade, cada bairro e cada empreendimento existem pessoas.

São os trabalhadores, comerciantes, professores, estudantes, profissionais liberais, agricultores, empresários, servidores públicos, religiosos, artistas, jornalistas e tantos outros que fazem a cidade acontecer todos os dias.

Feira também faz parte da minha história

E é justamente aqui que esta homenagem deixa de ser apenas um texto sobre uma cidade e passa a ser também uma manifestação pessoal.

Feira de Santana me adotou.

Não nasci nesta terra, mas aprendi a amá-la.

Aqui construí relações, amizades, trabalho, experiências e memórias. Aqui também exerci atividades que fazem parte da minha caminhada como jornalista, escritor, professor e cidadão.

E existe um momento que guardo com especial carinho: receber da Câmara Municipal de Feira de Santana o título de Cidadão Feirense.

Aquele título não foi apenas uma honraria.

Para mim, foi um abraço.

Foi a confirmação de que uma cidade pode nascer em determinado lugar e, ainda assim, escolher outras pessoas para fazerem parte de sua história.

Ser reconhecido como cidadão feirense é carregar uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma gratidão.

É poder dizer, com a simplicidade de quem fala com o coração:

Feira de Santana também é minha casa.

Uma cidade feita de memória e esperança

Feira tem seus desafios, suas contradições e suas necessidades. Como toda grande cidade, precisa continuar discutindo seu futuro, planejando seu crescimento, cuidando de sua população e preservando sua memória.

Mas celebrar seus 193 anos é também reconhecer a extraordinária caminhada realizada desde aquele pequeno núcleo formado entre caminhos, aguadas, comércio e fé.

Uma cidade que nasceu da circulação de pessoas tornou-se uma cidade que acolhe pessoas.

Uma cidade que nasceu de uma feira tornou-se referência regional.

Uma cidade que cresceu no sertão tornou-se uma das principais forças econômicas e sociais da Bahia.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas da Princesa do Sertão: saber transformar encontros em história.

Gratidão à Princesa do Sertão

Neste 18 de setembro, minha palavra é de gratidão.

Gratidão à cidade que me recebeu.

Gratidão às pessoas que me acolheram.

Gratidão à Câmara Municipal pela distinção de me conceder o título de Cidadão Feirense.

Gratidão aos amigos que Feira me presenteou ao longo dos anos.

E gratidão a todos aqueles que, geração após geração, ajudaram a construir esta cidade.

Hoje, olhando para a Feira de ontem e para a Feira de hoje, penso também na Feira que continuará sendo construída amanhã.

Que seus caminhos permaneçam abertos.

Que sua gente continue sendo sua maior riqueza.

Que sua história seja preservada.

Que seus filhos tenham orgulho de sua terra.

E que aqueles que chegam de outras terras, como eu, possam continuar encontrando aqui acolhimento, amizade e oportunidade para também deixar suas marcas.

Porque algumas cidades nós escolhemos.

Outras cidades nos escolhem.

Feira de Santana me escolheu.

E eu só posso responder a esse gesto com uma palavra:

Obrigado, Feira de Santana!

Salve, Princesa do Sertão!

E quando faltam palavras para expressar o sentimento, a poesia de Georgina Erismann, no Hino à Feira, encontra aquilo que o coração feirense muitas vezes não consegue dizer.

Salve, ó terra formosa e bendita,
Paraíso com o nome de Feira…
Toda cheia de graça infinita,
És do Norte a princesa altaneira.

Que essas palavras continuem atravessando gerações.

Que continuem ecoando nas escolas, nas cerimônias, nas ruas e no coração de cada feirense.

Parabéns, Feira de Santana, pelos seus 193 anos!

Que Deus abençoe a Princesa do Sertão, sua gente e os seus caminhos.

Prof. Itamar Ribeiro
Jornalista, escritor e Cidadão Feirense

Foto: Divulgação

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