Literar a vida

Quando a existência vira narrativa e a literatura aprende a escutar os sinais do mundo

Há vidas que passam despercebidas aos olhos apressados do cotidiano. Há histórias que atravessam corredores, ocupam salas de aula, ecoam nos intervalos, habitamos silêncio se permanecem invisíveis porque quase nunca encontram espaço para serem narradas. Ao Som do Sinal – Novos Contos Negros nasce justamente da recusa desse apagamento. Inspirada no conceito de escrevivência, formulado pela escritora Conceição Evaristo, a obra assume a literatura como um gesto de transformação da experiência em linguagem, da memória em permanência e da vida em narrativa. Dialogando com esse horizonte teórico, Ao Som do Sinal mobiliza o conceito de Literar a vida, desenvolvido por Jocevaldo Santiago como método de produção literária. Partindo da compreensão de que “a vida e a palavra são a matéria-prima da literatura”, o conceito propõe reconhecer, nas cenas ordinárias do cotidiano, a potência narrativa que atravessa afetos, conflitos, silêncios e descobertas. Se a escrevivência nos convida a escrever a partir das marcas do existir, Ao Som do Sinal escolhe literar a vida: transformar experiências aparentemente comuns em matéria literária, revelando a potência estética, afetiva e política das experiências juvenis negras.

Nesse livro, a escola não aparece apenas como cenário. Ela se torna personagem, território simbólico e arquivo vivo de memórias, desejos, medos, amores, descobertas e conflitos. Os corredores guardam segredos, os muros escutam conversas interrompidas, os intervalos se transformam em encontros decisivos e os silêncios dizem tanto quanto as palavras. Tudo reverbera.

As narrativas reunidas em Ao Som do Sinal – Novos Contos Negros deslocam o olhar para aquilo que, historicamente, permaneceu à margem do cânone literário: os afetos juvenis negros, suas subjetividades, suas formas de amar, sonhar, sofrer, criar e imaginar futuros possíveis. Não se trata de falar sobre juventudes negras, mas de permitir que elas falem por si mesmas, assumindo o centro da narrativa e o direito à invenção de seus próprios mundos.

A obra é fruto do Cri’Ativa – Talentos Literários, projeto criado por Jocevaldo Santiago para revelar e incentivar jovens escritores que desejam transformar seus textos em livros sem abrir mão da originalidade de suas vozes. Mais do que uma oficina de escrita, o Cri’Ativa constitui uma plataforma de formação e publicação que acompanha seus participantes desde os primeiros rascunhos até o lançamento da obra, oferecendo mediação literária, orientação editorial e inserção profissional no campo do livro.

O resultado desse percurso coletivo é a chegada de dez novos nomes à cena literária brasileira, autores e autoras que transformaram experiências, observações do cotidiano e imaginações em literatura. Entre esses novos escritores, um dado chama atenção e simboliza a força deste momento: nove são mulheres negras jovens, reafirmando a centralidade das vozes femininas negras na renovação da literatura contemporânea brasileira. Não por acaso, o lançamento do livro acontecerá em uma data carregada de significados simbólicos e históricos. No dia 25 de julho, celebram-se simultaneamente o Dia Nacional do Escritor, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A coincidência dessas datas transforma o lançamento em algo maior do que a apresentação de um livro: torna-se um encontro entre literatura, memória, ancestralidade e futuro.

Publicar Ao Som do Sinal – Novos Contos Negros nesse dia significa reconhecer que escrever também é ocupar espaços historicamente negados; significa afirmar a literatura como território de pertencimento e permanência; significa inscrever novas vozes no mapa da produção literária brasileira e ampliar os horizontes do que entendemos como experiência literária nacional.

Mais do que um lançamento editorial, o dia 25 de julho será uma celebração da palavra, da criação e da continuidade. Uma festa para os livros, para as leitoras e leitores, para as famílias, para as comunidades e, sobretudo, para os jovens autores que escolheram transformar avida em literatura e a literatura em possibilidade de existência.

Porque algumas reverberar histórias não nasceram para permanecer em silêncio. Elas nasceram para. E, em Ao som do sinal, elas finalmente encontram quem as escute.

Serviço

O quê? Lançamento do livro Ao som do sinal – Novos contos negros, Jocevaldo Santiago(Org). Editora Segundo Selo

Quando: 25 de Julho

Onde: Biblioteca Central do Estado da Bahia-Barris.

Horário: Às 9h

Informações: www.projetocriativa.com @jocevaldosantiago

O projeto Cri’Ativa – Talentos Literários foi contemplado pelo edital Territórios Criativos-Ano II com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador e da Politica Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), Ministério da Cultura, Governo Federal.

Sobre o idealizador

Jocevaldo Santiago é mestre em Literatura e Cultura pelo PPGLit Cult-ILUFBA e graduado em Letras Vernáculas pela UFBA. Atuando como arte-educador e escritor, é autor de obras como Agô (2019), O Diferencial da Favela – Poesias Quebradas de Quebradas (2014), além de participação na Antologia Negrerótica (2013-2014).

Entre 2021 e 2024, coordenou a Oficina de Escrita Criativa Corp’Oralidade – uma poética ancestral e produziu o Sarau do Teo, na Escola Estadual Teodoro Sampaio (Pirajá), por meio de ações do Governo do Estado da Bahia.

Foi responsável também pela oficina Quilombo da Maré (2017-2018), realizada na Escola Municipal de Ilha de Maré, iniciativa da Prefeitura de Salvador, da qual resultou uma aluna premiada com o Prêmio Jorge Amado de Literatura.

Em 2012, ministrou a oficina “A linguagem do rap como expressão literária da periferia”, na Comunidade de Atendimento Socioeducativo de Salvador. De 2008 a 2012, conduziu oficinas de criação literária e promoveu ações culturais e educativas em  escolas públicas por meio do Projeto Mais Educação, contribuindo para a formação literária de jovens em diversos territórios de Salvador. (Ascom).

Fotos: Divulgação

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