Documentos citam possíveis irregularidades, interferência em investigações e direcionamento de apurações; presidente do STF deverá avaliar providências
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), encaminhou ao presidente da Corte, Edson Fachin, relatórios da Polícia Federal que apontam possíveis irregularidades na atuação do ministro André Mendonça na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero.
A decisão, tomada nesta quinta-feira (3), também retirou o sigilo do material e determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) seja comunicada.
Segundo Moraes, os documentos reuniriam “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, além de possíveis quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos. As conclusões apresentadas, contudo, ainda deverão ser analisadas pelas instâncias competentes.
A reportagem que revelou o conteúdo da decisão foi publicada pela Jovem Pan, assinada pelos jornalistas Matheus Alleoni e Bruno Pinheiro, em 3 de setembro de 2026.
Relatórios apontam três linhas de suspeitas
Os documentos da Polícia Federal citados na decisão apresentam, segundo a reportagem, três principais conjuntos de questionamentos relacionados à atuação de Mendonça.
O primeiro envolve uma possível interferência na condução das investigações. De acordo com os relatórios, o ministro teria solicitado acesso antecipado a dados brutos e adotado medidas que, na avaliação da PF, poderiam interferir na cadeia de custódia das provas.
Os documentos chegam a sustentar que, em determinadas situações, o resultado das decisões poderia colocar o próprio julgador em uma posição semelhante à de investigador, além de registrar questionamentos sobre a escolha de alvos e medidas cautelares.
O segundo ponto diz respeito às tratativas de colaboração premiada. Conforme os relatórios reproduzidos na decisão, Mendonça teria participado de discussões sobre negociações relacionadas às operações, inclusive com questionamentos sobre o andamento e o conteúdo apresentado por possíveis colaboradores.
A terceira frente trata de um possível direcionamento das investigações. O material citado por Moraes afirma que Mendonça teria demonstrado interesse em aprofundar apurações envolvendo o próprio Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Fachin terá de avaliar as providências
O encaminhamento dos relatórios ao presidente do STF não significa, por si só, a abertura automática de uma investigação contra André Mendonça. Caberá a Fachin avaliar o material e decidir quais providências considera necessárias.
A movimentação ocorre em meio ao aumento das tensões dentro do Supremo em torno do caso Banco Master e da atuação das instituições na investigação.
Nesta quinta-feira, Fachin também determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentem informações sobre os desdobramentos do caso Master no prazo de cinco dias úteis.
Caso Master elevou tensão no STF
Mendonça é relator de procedimento relacionado ao caso Banco Master, no qual a Polícia Federal analisou elementos encontrados no celular do banqueiro Daniel Vorcaro.
O material passou a envolver referências a integrantes do STF e provocou novos questionamentos sobre os limites da atuação judicial e da investigação policial.
A PGR, inclusive, questionou parte da condução do procedimento e defendeu a nulidade da determinação que aprofundou as apurações relacionadas a Alexandre de Moraes. Mendonça, por sua vez, defendeu que os novos elementos sejam analisados pelo plenário do Supremo, com discussão pública e presencial.
Agora, os relatórios utilizados por Moraes acrescentam um novo capítulo à crise institucional, colocando sob análise também a atuação de Mendonça nas operações Sem Desconto e Compliance Zero.
Da Redação – Soteropolis Noticias
Foto: Alexandre de Moraes e André MendonçaTON MOLINA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO e Carlos Moura/SCO/STF

