Levantamento mostra forte concentração das campanhas no Sudeste e levanta uma pergunta: por que os candidatos não percorrem mais os estados nordestinos para apresentar seus projetos?
Por Itamar Ribeiro*
À medida que a eleição presidencial se aproxima, uma questão chama a atenção do Soterópolis Notícias: onde estão os candidatos à Presidência quando o assunto é percorrer o Nordeste brasileiro para apresentar pessoalmente suas propostas ao eleitor?
A pergunta ganha força diante dos números. Levantamento do Poder360, que acompanhou as agendas dos seis principais candidatos entre 16 de agosto e 16 de setembro, registrou 173 viagens de campanha. Desse total, 112 ocorreram no Sudeste, enquanto apenas 15 foram realizadas no Nordeste.
Não significa que o Nordeste tenha sido completamente esquecido. Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) estiveram em estados nordestinos no período analisado. Mas a diferença na quantidade de deslocamentos chama atenção quando comparada à presença das campanhas no Sudeste.
E é justamente essa diferença que merece ser discutida.
O Nordeste quer ouvir os candidatos
São nove estados, milhões de eleitores e uma realidade econômica e social marcada por diferenças profundas entre capitais, regiões metropolitanas, cidades médias e municípios do interior.
Mesmo assim, sete estados brasileiros não haviam recebido nenhuma visita dos seis candidatos analisados pelo Poder360 até 16 de setembro. No Nordeste, Ronaldo Caiado não havia visitado nenhum estado da região naquele período, enquanto Augusto Cury também não havia passado por território nordestino.
O levantamento mostra ainda que São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal foram os únicos estados ou unidades federativas visitados por todos os seis candidatos.
A pergunta não é apenas eleitoral
É natural que as campanhas considerem o tamanho dos colégios eleitorais na definição das agendas. O Sudeste concentra uma parcela expressiva do eleitorado e reúne importantes centros econômicos, empresariais e de comunicação.
Mas uma eleição presidencial não deveria ser também uma oportunidade para conhecer de perto as diferentes realidades do país?
É nesse ponto que o Soterópolis Notícias coloca a questão.
Por que os candidatos não aproveitam a campanha para visitar mais universidades, entidades de classe, sindicatos, associações empresariais, organizações sociais, igrejas, movimentos comunitários e veículos de comunicação do Nordeste?
Por que não realizar debates regionais, entrevistas e sabatinas nos estados nordestinos, permitindo que jornalistas e representantes da sociedade apresentem aos candidatos problemas que muitas vezes não aparecem nos grandes palcos nacionais?
Comício é importante, mas não basta
Carreatas, caminhadas e comícios fazem parte da dinâmica eleitoral. Reúnem apoiadores e ajudam as campanhas a ocupar espaços públicos.
Mas existe outra dimensão da campanha: sentar diante da sociedade e responder perguntas.
Educação, saúde, segurança, infraestrutura, desenvolvimento regional, convivência com a seca, agricultura, turismo, indústria, geração de empregos e desigualdades sociais são temas que podem ganhar abordagens diferentes conforme a região do país.
Por isso, entrevistas e sabatinas regionais podem funcionar como um espaço para o eleitor conhecer não apenas o discurso político, mas as propostas concretas dos candidatos para problemas específicos.
O próprio levantamento mostra caminhos diferentes
Os seis candidatos adotaram estratégias distintas.
Lula e Flávio Bolsonaro foram os que mais viajaram no primeiro mês, com 11 estados visitados cada um. Lula esteve em quatro estados nordestinos — Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte — enquanto Flávio passou por Alagoas, Ceará e Pernambuco, além de estados do Norte.
Renan Santos realizou quatro viagens ao Nordeste, passando por Alagoas, Ceará, Maranhão e Paraíba. Zema teve duas viagens à região, ambas ao Ceará. Já Caiado e Cury não haviam visitado estados nordestinos no período analisado.
Ao mesmo tempo, o levantamento registra intensa concentração no Sudeste. Caiado passou 23 dias em São Paulo, enquanto Cury dedicou 28 dias ao Sudeste, sendo 21 em São Paulo. Zema registrou 19 viagens na região.
A campanha ainda pode mudar
Com a aproximação do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, as agendas estão sendo reorganizadas.
A própria movimentação dos últimos dias mostra essa mudança. Flávio Bolsonaro, por exemplo, iniciou esta semana no Rio Grande do Norte e tem compromisso previsto no Maranhão, antes de retornar ao Sudeste. Lula também deverá concentrar parte de sua agenda na reta final entre o Nordeste e o Sudeste.
Portanto, o cenário ainda está em movimento.
Mas fica o questionamento editorial do Soterópolis Notícias:
Se a eleição é para escolher quem pretende governar o Brasil inteiro, não seria importante que os candidatos também percorressem o Brasil inteiro — especialmente regiões que ainda receberam poucas visitas — para ouvir, debater e apresentar seus projetos diretamente à população?
A pergunta fica aberta. Cabe aos candidatos responderem com suas agendas e, sobretudo, com presença.
Itamar Ribeiro* – Jornalista e Editor
Foto: Divulgação/Arte SN

