O Abraço que Ficou na Memória

Adilson Vicente da Silva transformou a solidariedade em missão e deixou como herança o exemplo de quem viveu para servir ao próximo

Por Itamar Ribeiro

Há pessoas que atravessam a vida deixando rastros discretos. Outras, porém, passam por este mundo deixando marcas tão profundas que o tempo jamais conseguirá apagar. Não porque ocuparam os maiores cargos ou buscaram os holofotes, mas porque fizeram do amor ao próximo a principal razão de existir. São homens cuja grandeza não se mede pelos títulos que receberam, mas pelos corações que tocaram.

Foi assim que me senti na tarde desta terça-feira, 4 de agosto, quando, por volta das 16 horas, recebi a notícia de que um grande amigo já não caminhava entre nós desde o dia 22 de julho. A surpresa me silenciou. Custei a acreditar que Adilson Vicente da Silva — o nosso inesquecível “Adilsão, o Abraço Amigo da Bahia” — havia partido sem que eu soubesse.

Algumas ausências chegam como um golpe inesperado. Elas nos fazem compreender que a rotina, tantas vezes automática, escondia encontros que pareciam eternos.

Quem frequentava a Assembleia Legislativa da Bahia dificilmente deixava de notar sua presença. Antes mesmo de qualquer palavra, vinha o sorriso. Depois, o abraço. Um abraço verdadeiro, daqueles que acolhem, confortam e fazem o outro sentir-se importante.

Adilsão era um homem de estatura física privilegiada, mas sua maior dimensão estava na alma. Alto, comunicativo e dono de uma voz marcante, transformava qualquer roda de conversa em um espaço de convivência fraterna. Na recepção da Assembleia, sua mesa era ponto de encontro de deputados, prefeitos, assessores, jornalistas e amigos. Ali a política era debatida com paixão, experiência e sinceridade. Conhecedor profundo dos municípios baianos, antecipava cenários eleitorais, analisava lideranças e falava com a autoridade de quem conhecia pessoas, histórias e caminhos.

Sua amizade ultrapassava os corredores do Poder Legislativo. Era respeitado no Executivo, estimado no Judiciário, admirado nos Tribunais de Contas e querido por servidores e autoridades de todas as esferas. Mas sua verdadeira influência nunca esteve nos gabinetes. Estava nas pessoas.

Porque Adilsão compreendia que servir era muito mais importante do que aparecer.

Enquanto muitos acumulam patrimônio, ele acumulava gratidão.

Foi desse espírito que nasceu a Casa de Apoio Abraço Amigo, instalada no bairro da Saúde, em Salvador. Ali, pessoas vindas dos mais diversos municípios baianos encontravam muito mais que um teto para descansar durante tratamentos médicos. Encontravam acolhimento, dignidade, alimento, esperança e, acima de tudo, humanidade.

Quantas mães chegaram aflitas acompanhando seus filhos.

Quantos idosos encontraram um lugar seguro.

Quantas famílias, sem recursos para permanecer na capital, descobriram naquela casa uma extensão do próprio lar.

Ali não havia distinção de classe social, partido político ou religião. Havia apenas pessoas necessitando de ajuda e um homem disposto a estender as mãos.

Essa era sua verdadeira profissão de fé.

Nesta semana, durante o tradicional almoço da nossa Confraria, no restaurante A La Carte da Assembleia Legislativa, sua cadeira permaneceu vazia.

O silêncio falou mais alto que qualquer conversa.

Foi impossível não lembrar da conhecida canção que diz:

“Nesta mesa está faltando ele…”

E realmente estava.

Faltava a gargalhada contagiante.

Faltava a análise política sempre bem-humorada.

Faltava o abraço demorado.

Faltava a presença que fazia daquele encontro algo ainda mais especial.

Ao redor da mesa permaneciam os amigos de sempre: Saraiva, Coronel, Ari Carlos, Nelson Leal, Paulo Machado, Mascate, Dr. Enio, João Hipólito, Chocolate da Bahia e tantos outros confrades que aprenderam a admirar não apenas o homem público, mas sobretudo o ser humano extraordinário que ele era.

Sabemos que ninguém é insubstituível. A vida segue seu curso e o tempo reorganiza as ausências. Mas também sabemos que algumas pessoas deixam espaços que jamais voltarão a ser preenchidos da mesma maneira.

Adilsão pertence a esse grupo.

Seu legado não está gravado em monumentos de pedra.

Está escrito nas lágrimas de quem foi socorrido.

Nos sorrisos de quem encontrou abrigo.

Na gratidão silenciosa daqueles que voltaram para casa depois de um tratamento de saúde e jamais esqueceram quem lhes estendeu a mão quando tudo parecia difícil.

Esses gestos são eternos.

Eles não morrem.

Continuam vivendo na memória daqueles que aprenderam, através dele, que a solidariedade é a linguagem mais bonita que um ser humano pode falar.

Hoje, Adilson Vicente da Silva já não percorre os corredores da Assembleia Legislativa.

Seus braços já não se abrem para receber os amigos.

Sua voz já não ecoa pelos salões onde tantas histórias ajudou a construir.

Mas seu exemplo continua caminhando entre nós.

Permanece em cada abraço oferecido sem interesse.

Em cada gesto de generosidade.

Em cada mão estendida ao necessitado.

Em cada coração que compreendeu que viver vale a pena quando fazemos a diferença na vida de alguém.

Adilsão deixa a esposa, Maria Helena, os filhos Adilson, Adson Thiago e Milena Oliveira, além de uma imensa família de amigos espalhada por toda a Bahia.

Partiu aos 74 anos, no dia 22 de julho de 2026, mas sua missão permanece viva.

Que Deus, o Senhor da vida e da eternidade, recompense abundantemente todo o bem que ele semeou nesta terra. E que aquele abraço que tantas vezes acolheu os aflitos continue, agora, simbolicamente aberto na memória daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Porque homens assim não desaparecem.

Transformam-se em lembrança.

Transformam-se em inspiração.

Transformam-se em saudade.

E a saudade, quando nasce do amor e da gratidão, é apenas outra maneira de dizer que certas pessoas jamais deixarão de viver entre nós.

Adilsão, o Abraço Amigo da Bahia, permanece vivo na história, na memória e no coração de todos aqueles que tiveram a honra de chamá-lo de amigo.

Data de nascimento: 17 de novembro de 1951
Falecimento: 22 de julho de 2026

Editor – Soteropolis Noticias

Foto Divulgação

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