Casarão da centenária Sociedade Filarmônica Vitória será restaurado para reunir academias, preservar a história e consolidar um corredor cultural no coração da Princesa do Sertão
A preservação da memória e da identidade de um povo passa, inevitavelmente, pelo cuidado com seus patrimônios históricos. Em Feira de Santana, um dos mais importantes capítulos dessa história começa a ser reescrito com a transformação da sede da Sociedade Filarmônica Vitória no futuro Palácio das Academias. O tradicional casarão da Rua Conselheiro Franco, fundado junto à trajetória da própria cidade moderna, será restaurado após a desapropriação promovida pela Prefeitura e passará a abrigar as principais academias culturais e científicas do município e o Instituto Geográfico e Histórico de Feira de Santana.
A medida foi anunciada pelo prefeito José Ronaldo de Carvalho durante coletiva de imprensa realizada no final de junho, quando também foram apresentados outros investimentos voltados à preservação do patrimônio histórico feirense. O decreto que declarou o imóvel de utilidade pública para fins de desapropriação representa o primeiro passo para devolver vida a um espaço que, durante décadas, sediou bailes, concertos, serestas e encontros que marcaram gerações de feirenses.
Fundada em 1873 pelo Padre Ovídio de São Boa Ventura, a Sociedade Filarmônica Vitória ocupa um lugar de destaque na história cultural de Feira de Santana. Muito além de uma instituição musical, tornou-se um ponto de encontro da sociedade, palco de importantes manifestações artísticas e símbolo de uma época em que a cultura ocupava posição central na vida da cidade.
Agora, o edifício ganhará uma nova vocação: transformar-se em um centro permanente de produção intelectual, pesquisa, literatura, artes e preservação da memória, reunindo em um mesmo endereço diversas academias feirenses e o Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana.
Para a presidente da Academia de Letras e Artes de Feira de Santana, professora Lelia Vitor, a notícia foi recebida como um verdadeiro presente para a cultura da cidade.
Segundo ela, os representantes das instituições foram convidados para uma reunião sem conhecer a pauta e acabaram surpreendidos pelo conjunto de investimentos anunciados pela Prefeitura.
Além da recuperação da Filarmônica Vitória, foram apresentados projetos de restauração do Arquivo Público Municipal, instalado no antigo Colégio João Florêncio, da Escola Maria Quitéria, da revitalização da Praça Fróes da Motta — que será transformada em espaço para apresentações culturais, recitais e manifestações artísticas — e da aquisição do antigo Ginásio Santanópolis para implantação do novo centro administrativo do município.
“O anúncio da recuperação da Filarmônica Vitória foi o momento de maior emoção. Já estamos imaginando nossas academias funcionando naquele espaço tão representativo para a história da cidade”, destacou.
Lelia ressalta ainda que a escolha da Rua Conselheiro Franco possui enorme significado histórico.
“É uma das primeiras ruas de Feira de Santana e concentra importantes equipamentos culturais, como a Biblioteca Monteiro Lobato, o Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), a Euterpe Feirense, a Filarmônica 25 de Março. Trata-se de um verdadeiro corredor cultural que merece ser valorizado, frequentado e conhecido pelas novas gerações.”
O professor Itamar Ribeiro, membro da Academia de Letras e Artes de Feira de Santana (ALAFS), acredita que a reunião das academias em um único espaço abrirá uma nova etapa para a produção cultural feirense.
“Quando escritores, pesquisadores, historiadores, educadores e artistas convivem diariamente, surgem novas ideias, projetos e iniciativas em benefício da cidade. Esse ambiente favorecerá o diálogo entre as instituições e fortalecerá a preservação da memória de Feira de Santana.”
Para o acadêmico, a localização do futuro Palácio das Academias amplia ainda mais sua importância.
“Ali já existe um conjunto extraordinário de equipamentos culturais formado pela Biblioteca Monteiro Lobato, pelo CUCA, pela Euterpe Feirense e outros. A revitalização da Filarmônica Vitória cria um verdadeiro polo cultural no centro da cidade, valorizando nossa história e oferecendo aos visitantes um espaço capaz de contar a trajetória da Princesa do Sertão.”
A professora Marilene Barreto, integrante da Academia de Educação de Feira de Santana, também destacou o simbolismo da iniciativa.
“O valor histórico daquele prédio dialoga perfeitamente com o valor cultural das academias. Certamente será um espaço muito procurado pela população. Um lugar que testemunhou diferentes épocas da cidade passa agora a servir ao conhecimento, à educação e ao futuro.”
Ela observa que outras experiências de ocupação de imóveis históricos, como o Casarão dos Olhos d’Água, enfrentam limitações estruturais, sobretudo para a preservação de acervos bibliográficos. Segundo Marilene, a recuperação da Filarmônica Vitória representa uma oportunidade de oferecer melhores condições para o funcionamento das instituições culturais e para a conservação de seus importantes patrimônios documentais.
A iniciativa também foi celebrada pelo professor Josué Mello, ex-reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana e ex-presidente da Academia de Educação de Feira de Santana.
“O ato do prefeito José Ronaldo de restaurar o prédio histórico da Filarmônica Vitória e destiná-lo às academias feirenses merece nossos aplausos e agradecimentos. Foi um ‘sim’ à história, um ‘sim’ à cultura e um ‘sim’ às instituições que há décadas preservam a memória e a identidade de Feira de Santana.”
Mais do que recuperar um edifício centenário, a criação do Palácio das Academias simboliza um compromisso com o passado e uma aposta no futuro. Ao reunir, em um mesmo espaço, instituições dedicadas às letras, às artes, à educação, à pesquisa e à história, Feira de Santana fortalece seu patrimônio imaterial e reafirma sua condição de referência cultural do interior baiano.
A antiga sede da Filarmônica Vitória, que por tantos anos embalou bailes, concertos e encontros da sociedade feirense, continuará cumprindo sua missão histórica. Se antes fez ecoar a música que marcou gerações, agora fará ressoar as ideias, o conhecimento, a literatura e a produção intelectual de uma cidade que aprendeu a transformar sua memória em patrimônio e sua cultura em legado. O futuro Palácio das Academias nasce, assim, como um monumento vivo da identidade feirense — um espaço onde passado, presente e futuro caminharão lado a lado, preservando a história da Princesa do Sertão e inspirando as gerações que ainda escreverão seus próximos capítulos.
Editor – Soteropolis Noticias
Foto: G1

